Ministério Público MT
Palestra alerta sobre cooptação de jovens por facções em MT
Publicado em
19 de maio de 2026por
Da Redação
O recrutamento de crianças e adolescentes por facções criminosas, com foco nos mecanismos de cooptação e nos desafios de prevenção e enfrentamento, foi o eixo central da palestra ministrada pelo promotor de Justiça João Batista de Oliveira, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), nesta terça-feira (19), durante o 1º Encontro dos Direitos e Garantias Fundamentais e o 5º Encontro Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Mato Grosso. A mesa de debates foi presidida pelo juiz de Direito da 7ª Vara Criminal da Comarca de Cuiabá, Jean Garcia de Freitas Bezerra, e contou como debatedoras com a juíza da Vara da Infância e Juventude de Sinop, Melissa de Lima Araújo, e a promotora de Justiça Laís Liane Resende, coordenadora adjunta do Centro de Apoio Operacional de Atos Infracionais.Logo no início, o palestrante alertou para a fragilidade da rede de proteção e suas consequências diretas. “Quando a rede de proteção falha, as facções se apoderam de nossas crianças e adolescentes. Isso é um problema grave que nós temos e que precisa ser enfrentado com prioridade”, afirmou. Durante a exposição, João Batista detalhou os fatores que facilitam o aliciamento de jovens por organizações criminosas, destacando vulnerabilidades sociais, familiares e educacionais. Ele apontou que a pobreza extrema, a fragilidade dos vínculos afetivos e o uso de drogas no ambiente familiar contribuem diretamente para esse processo. “Famílias desestruturadas, com fragilidade de vínculos e problemas de adição, acabam deixando essas crianças expostas. A rede de proteção não consegue acolher de maneira adequada e as facções passam a ocupar esse espaço”, explicou.No campo educacional, o promotor ressaltou a evasão escolar como um dos principais vetores de risco. Segundo ele, há grande diferença entre classes sociais, com índices muito mais elevados entre populações vulneráveis. “Nós temos uma evasão escolar absurda nas classes C, D e E, e isso contribui efetivamente para o aliciamento”, pontuou.O contexto comunitário também foi abordado como elemento determinante para o fortalecimento das facções, que passam a ocupar lacunas deixadas pelo poder público. Essas organizações oferecem benefícios imediatos, como assistência e lazer, criando um sentimento de pertencimento. “Eles promovem uma falsa ideia de acolhimento, oferecendo segurança e atividades que o Estado não entrega, o que facilita a cooptação desses jovens”, destacou o palestrante. Para dimensionar a gravidade do problema, foram apresentados dados nacionais do Atlas da Violência. Em 2023, o Brasil registrou 45.747 homicídios, sendo que 47,8% envolveram jovens entre 15 e 29 anos. No mesmo período, 21.856 jovens foram mortos, o que corresponde a uma média de 60 vítimas por dia.O promotor também destacou o perfil das vítimas da violência letal, evidenciando desigualdades estruturais. Dados mostram que 82,9% das vítimas entre 0 e 19 anos são negras, com predominância de adolescentes do sexo masculino entre 15 e 19 anos. Sobre esse cenário, ele enfatizou: “O dado que mais assombra é justamente esse recorte racial. Nós temos uma juventude negra sendo muito mais atingida pela violência, em um índice muito superior ao da população branca”.Em Mato Grosso, o cenário também preocupa. O palestrante mencionou crescimento de quase 39% nas mortes de jovens entre 15 e 25 anos, com média de 22 óbitos por mês. Para ele, o dado reforça a necessidade de políticas públicas mais efetivas e integradas. “Quando a gente insiste na atuação da rede e nas políticas públicas, é justamente para que isso não aconteça. Sem essa atuação, nós vamos perder nossos jovens para a criminalidade”, alertou. A palestra ainda evidenciou a evolução das estratégias criminosas envolvendo adolescentes. Entre 2020 e 2026, houve aumento da utilização das redes sociais para recrutamento e controle, formalização de “batismos” em facções e expansão do chamado “tribunal do crime”. Outro ponto de destaque foi a influência das facções no sistema socioeducativo. Dados apresentados indicam que, em Mato Grosso, dos 240 adolescentes em cumprimento de medidas, 132 possuem indícios de vínculo com organizações criminosas. Para o promotor, isso demonstra a necessidade de atuação mais efetiva dentro e fora das unidades. “Precisamos de estratégias para romper esse vínculo e oferecer alternativas reais de reintegração social”, disse.Durante o debate, a promotora Laís Liane Resende enfatizou a gravidade do cenário e a velocidade com que o recrutamento tem ocorrido. “É um soco no estômago lidar com essa realidade. A sensação é que estamos em uma guerra e estamos perdendo, porque a cada caso solucionado, novos grupos já estão sendo formados”, afirmou.A juíza Melissa de Lima Araújo trouxe exemplos que apontam caminhos possíveis, ainda que pontuais. “Quando um adolescente consegue se recuperar e reconstruir sua trajetória, isso já representa um avanço importante, embora saibamos que o desafio ainda é enorme”, destacou.Ao encerrar, o presidente da mesa, juiz Jean Garcia de Freitas Bezerra, reforçou a importância da atuação preventiva e integrada. “As facções não recrutam esses adolescentes à força, elas os convencem, porque chegam primeiro que o Estado e preenchem lacunas deixadas pela família, pela escola e pela sociedade”, pontuou. Ele concluiu destacando que o enfrentamento passa pela atuação conjunta das instituições: “O problema está na origem, na captação, e é ali que precisamos atuar para quebrar esse ciclo”.Saiba mais – O encontro é uma iniciativa conjunta do MPMT, por meio da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Criança e do Adolescente e do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (Ceaf); do Poder Judiciário, por meio da Esmagis, da Escola dos Servidores, da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja) e da Coordenadoria da Infância e Juventude (CIJ); e da Faculdade Autônoma de Direito (Fadisp), com apoio da Fundação Escola de Ensino Superior do Ministério Público (FESMP‑MT). Clique aqui e confira a palestra na íntegra.Fotos: Josi Dias | TJMT.
Fonte: Ministério Público MT – MT
Ministério Público MT
Projeto FloreSer retoma atividades na Escola Raimundo Pinheiro
Published
1 dia agoon
24 de julho de 2026By
Da Redação
O projeto FloreSer, desenvolvido pelo Núcleo das Promotorias de Enfrentamento da Violência Doméstica e Familiar – Espaço Caliandra, iniciou uma nova etapa de rodas de conversa com estudantes da rede pública estadual. A Escola Estadual Raimundo Pinheiro, localizada no bairro Shangri-lá, em Cuiabá, foi incluída na programação e deverá receber atividades com 14 turmas dos 1º e 2º anos do Ensino Médio.A iniciativa, que conta com a parceria da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), promove diálogos com adolescentes sobre violência contra a mulher, prevenção e relacionamentos abusivos, especialmente entre jovens que estão iniciando suas primeiras relações afetivas.Nesta sexta-feira (24), 39 estudantes participaram de uma roda de conversa com a equipe técnica do Espaço Caliandra. A promotora de Justiça Claire Vogel Dutra também esteve presente e alertou os adolescentes sobre a importância de reconhecer, desde o início de um relacionamento, os sinais de violência psicológica e moral.“É importante que, desde o início do relacionamento, saibam identificar os sinais de violência psicológica e moral, que são formas de violência tão ou mais graves do que a física e que, em muitos casos, podem levar ao feminicídio”, alertou.Machismo e influência das redes sociais – Durante o encontro, a promotora de Justiça destacou que a equipe do FloreSer tem identificado, nas atividades realizadas nas escolas, a presença de comportamentos machistas entre adolescentes, além da influência de discursos misóginos disseminados nas redes sociais.“Temos percebido que a atual geração é mais machista do que a anterior. Há estudos que mostram isso, e temos verificado a disseminação de discursos machistas e misóginos nas redes sociais, que exercem uma influência muito grande sobre os nossos jovens, além da dificuldade de lidar com a rejeição”, afirmou.Claire Vogel Dutra ressaltou ainda que comportamentos de controle e posse podem começar a ser reproduzidos ainda na adolescência e, posteriormente, contribuir para a escalada da violência nos relacionamentos.“Grande parte dos feminicídios ocorre porque o agressor não se conforma com o término do relacionamento e enxerga aquela pessoa como uma propriedade, como alguém que não tem vontade própria. Esse comportamento não começa na idade adulta. Ele se inicia muito cedo, dentro de casa, na forma como os pais se relacionam e educam os filhos, e acaba sendo reproduzido”, explicou.A inclusão da Escola Estadual Raimundo Pinheiro nas atividades do FloreSer ocorreu a partir de uma solicitação da Seduc, que identificou a necessidade de ampliar a abordagem sobre a violência de gênero entre os estudantes, especialmente adolescentes com idade entre 15 e 17 anos.A professora de Matemática Letícia Brito de Souza cedeu parte do horário de sua aula para a realização da roda de conversa e acompanhou o diálogo entre os estudantes e a equipe do Espaço Caliandra. Para ela, a abordagem preventiva é fundamental, principalmente porque muitos adolescentes convivem com situações de violência sem saber reconhecer os sinais ou buscar ajuda.“Desde cedo, eles precisam saber identificar situações que podem representar riscos à própria segurança e entender como evitá-las. Muitos deles vivem em contextos de violência dentro de casa e não sabem a quem pedir ajuda ou mesmo reconhecer os sinais”, destacou.A professora também ressaltou a proximidade dos educadores com os estudantes e a importância de criar espaços seguros para o diálogo. “Nós, como professores, convivemos bastante com eles e ouvimos relatos, principalmente das meninas, sobre situações de machismo e violência nos relacionamentos”, frisou.O projeto FloreSer busca contribuir para a prevenção da violência contra a mulher por meio da educação e da conscientização de adolescentes, promovendo reflexões sobre respeito, igualdade, masculinidades e relações saudáveis. A proposta é estimular os jovens a reconhecer comportamentos abusivos e romper, ainda na adolescência, com padrões de violência e de desigualdade de gênero.
Fonte: Ministério Público MT – MT
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