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Projeto FloreSer retoma atividades na Escola Raimundo Pinheiro

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O projeto FloreSer, desenvolvido pelo Núcleo das Promotorias de Enfrentamento da Violência Doméstica e Familiar – Espaço Caliandra, iniciou uma nova etapa de rodas de conversa com estudantes da rede pública estadual. A Escola Estadual Raimundo Pinheiro, localizada no bairro Shangri-lá, em Cuiabá, foi incluída na programação e deverá receber atividades com 14 turmas dos 1º e 2º anos do Ensino Médio.A iniciativa, que conta com a parceria da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), promove diálogos com adolescentes sobre violência contra a mulher, prevenção e relacionamentos abusivos, especialmente entre jovens que estão iniciando suas primeiras relações afetivas.Nesta sexta-feira (24), 39 estudantes participaram de uma roda de conversa com a equipe técnica do Espaço Caliandra. A promotora de Justiça Claire Vogel Dutra também esteve presente e alertou os adolescentes sobre a importância de reconhecer, desde o início de um relacionamento, os sinais de violência psicológica e moral.“É importante que, desde o início do relacionamento, saibam identificar os sinais de violência psicológica e moral, que são formas de violência tão ou mais graves do que a física e que, em muitos casos, podem levar ao feminicídio”, alertou.Machismo e influência das redes sociais – Durante o encontro, a promotora de Justiça destacou que a equipe do FloreSer tem identificado, nas atividades realizadas nas escolas, a presença de comportamentos machistas entre adolescentes, além da influência de discursos misóginos disseminados nas redes sociais.“Temos percebido que a atual geração é mais machista do que a anterior. Há estudos que mostram isso, e temos verificado a disseminação de discursos machistas e misóginos nas redes sociais, que exercem uma influência muito grande sobre os nossos jovens, além da dificuldade de lidar com a rejeição”, afirmou.Claire Vogel Dutra ressaltou ainda que comportamentos de controle e posse podem começar a ser reproduzidos ainda na adolescência e, posteriormente, contribuir para a escalada da violência nos relacionamentos.“Grande parte dos feminicídios ocorre porque o agressor não se conforma com o término do relacionamento e enxerga aquela pessoa como uma propriedade, como alguém que não tem vontade própria. Esse comportamento não começa na idade adulta. Ele se inicia muito cedo, dentro de casa, na forma como os pais se relacionam e educam os filhos, e acaba sendo reproduzido”, explicou.A inclusão da Escola Estadual Raimundo Pinheiro nas atividades do FloreSer ocorreu a partir de uma solicitação da Seduc, que identificou a necessidade de ampliar a abordagem sobre a violência de gênero entre os estudantes, especialmente adolescentes com idade entre 15 e 17 anos.A professora de Matemática Letícia Brito de Souza cedeu parte do horário de sua aula para a realização da roda de conversa e acompanhou o diálogo entre os estudantes e a equipe do Espaço Caliandra. Para ela, a abordagem preventiva é fundamental, principalmente porque muitos adolescentes convivem com situações de violência sem saber reconhecer os sinais ou buscar ajuda.“Desde cedo, eles precisam saber identificar situações que podem representar riscos à própria segurança e entender como evitá-las. Muitos deles vivem em contextos de violência dentro de casa e não sabem a quem pedir ajuda ou mesmo reconhecer os sinais”, destacou.A professora também ressaltou a proximidade dos educadores com os estudantes e a importância de criar espaços seguros para o diálogo. “Nós, como professores, convivemos bastante com eles e ouvimos relatos, principalmente das meninas, sobre situações de machismo e violência nos relacionamentos”, frisou.O projeto FloreSer busca contribuir para a prevenção da violência contra a mulher por meio da educação e da conscientização de adolescentes, promovendo reflexões sobre respeito, igualdade, masculinidades e relações saudáveis. A proposta é estimular os jovens a reconhecer comportamentos abusivos e romper, ainda na adolescência, com padrões de violência e de desigualdade de gênero.

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Fonte: Ministério Público MT – MT

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Quem mal lê, mal sabe, mal ouve, mal vê

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Mato Grosso cresce, mas ainda precisa formar seus leitoresHá frases que parecem tão evidentes que passam despercebidas. “Quem mal lê, mal sabe, mal ouve, mal vê” é uma delas. À primeira vista, soa apenas como uma recomendação em favor dos livros, mas contém um diagnóstico incômodo: a deficiência de leitura não limita somente o que sabemos; compromete também a maneira como compreendemos aquilo que ouvimos, vemos e escolhemos.Não estamos falando apenas de romances e bibliotecas, mas também da bula do remédio, do contrato bancário, da intimação judicial, da notícia no celular e da promessa eleitoral. Entre o cidadão e seus direitos existe quase sempre um texto. Quem não o compreende precisa aceitar a interpretação alheia — e nem todo intérprete, convenhamos, é movido pela caridade.Não basta reconhecer as palavras. É possível atravessar uma página inteira sem perceber o argumento, a ironia, a omissão ou o interesse de quem escreveu. A alfabetização decifra o texto; a leitura efetiva permite desconfiar dele. Uma abre a porta; a outra nos ensina a descobrir quem está tentando entrar.Em Mato Grosso, esse alarme soa de forma estridente. A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que apenas 36% dos mato-grossenses leram ao menos parte de um livro nos três meses anteriores à entrevista. É o pior resultado do Centro-Oeste e o segundo pior do país, à frente somente do Rio Grande do Norte.Detenhamo-nos por um instante nesse número. Em um estado que se orgulha de bater recordes econômicos, quase dois em cada três habitantes não haviam lido sequer parte de um livro no período pesquisado. Podemos celebrar safras e exportações, mas que futuro construiremos se a expansão material não vier acompanhada do desenvolvimento intelectual?A penúltima posição nacional não é mera curiosidade estatística. É um chamado urgente ao Governo do Estado, aos municípios, às escolas, às universidades, ao sistema de Justiça, às empresas, às famílias e a cada um de nós.Quem lê mal não terá dificuldade apenas na aula de português. Terá problemas para interpretar uma questão de matemática, acompanhar uma explicação de ciências ou seguir instruções técnicas. A leitura é o chão sobre o qual as outras disciplinas caminham.Sem ela, o estudante acumula lacunas. Muitas vezes, é tachado de desinteressado, indisciplinado ou incapaz quando está apenas perdido diante de uma linguagem que a escola pressupõe que ele domine. À medida que os textos se tornam mais complexos, sua dificuldade aumenta. A vergonha vira silêncio; o silêncio, afastamento; e o afastamento, por vezes, abandono.Esse déficit não termina com a formatura — quando ela acontece. O adulto com baixa proficiência leitora encontra mais dificuldades para aprender novas tecnologias, interpretar normas de segurança, compreender documentos e participar de cursos de capacitação. A limitação que começou na sala de aula reaparece no trabalho, na renda e na liberdade de escolher um caminho.Mato Grosso conhece bem essa contradição. Temos uma economia dinâmica, mas parte das vagas permanece aberta por falta de profissionais qualificados. Em julho de 2026, dados do Imea e do Senar-MT mostraram que quase 70% dos produtores rurais apontaram a falta de qualificação técnica como o principal entrave para contratar.Seria exagero atribuir toda essa carência à deficiência de leitura. Mas não existe qualificação consistente sem a capacidade de compreender textos, manuais, sistemas e procedimentos. Não se trata apenas da ausência de leitura literária, mas também, por exemplo, da dificuldade para interpretar os comandos de uma máquina agrícola de última geração.A vaga existe. O candidato também. E ambos podem permanecer separados por uma deficiência iniciada muitos anos antes, diante de uma página que não foi compreendida.A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, ajuda a dimensionar o impacto do problema. Relatórios recentes mostram que quase um em cada três adultos nas economias avaliadas possui fragilidades fundamentais em leitura ou matemática. Esses adultos tendem a apresentar piores resultados de emprego, renda, saúde, confiança social e participação cívica.As desvantagens não aparecem isoladamente. Acumulam-se ao longo da vida e, muitas vezes, alcançam a geração seguinte. Pais com baixa proficiência leitora costumam ter mais dificuldades para acompanhar a educação dos filhos, auxiliá-los nas atividades escolares e inseri-los em ambientes nos quais os livros façam parte da vida cotidiana. A deficiência deixa, então, de ser apenas individual e passa a reproduzir-se socialmente.É significativo que nações como Finlândia e Japão tenham tratado a formação intelectual como parte estrutural de seu desenvolvimento. Evidentemente, nenhum país se torna desenvolvido apenas porque sua população lê. O progresso depende de instituições, ciência, estabilidade, infraestrutura e investimento. Mas uma economia moderna não se sustenta sem pessoas capazes de aprender continuamente, interpretar informações, comparar alternativas e resolver problemas.Recursos naturais podem gerar riqueza. O conhecimento é que a transforma em progresso duradouro.Um estado que sabe produzir grãos, carne, energia e divisas precisa também criar leitores. Do contrário, corre o risco de erguer uma economia sofisticada sem preparar parcela expressiva da população para ocupar os postos criados por ela.Convém agora abandonar as estatísticas e fazer uma pergunta desconfortável: e você, amigo leitor, quantos livros concluiu neste ano de 2026?Não vale incluir mensagens, manchetes e postagens nas redes sociais. Todos nós as lemos. A pergunta se refere à leitura que exige permanência: aquela que nos obriga a acompanhar um argumento, enfrentar uma ideia contrária e sustentar a atenção enquanto o telefone, esse pequeno tirano de bolso, oferece divertimentos imediatos.Não se trata de transformar livros em troféus de vaidade. Há quem leia cinquenta e compreenda pouco; há quem leia cinco e saia profundamente modificado de cada um. A pergunta serve apenas para expor uma contradição: costumamos defender a leitura em público e abandoná-la em particular. Reclamamos que as crianças não leem enquanto passamos a noite deslizando o dedo sobre uma tela. Exigimos concentração dos estudantes, mas já não suportamos um texto que demore mais de três minutos para chegar à conclusão.Ao mesmo tempo, seria injusto simplesmente culpar quem não lê. Muitos conheceram os livros apenas como instrumentos de punição escolar: prova, questionário, resumo e nota baixa. Outros enfrentam jornadas exaustivas, vivem em casas sem livros ou jamais tiveram acesso a uma biblioteca acolhedora.Não basta distribuir obras e repetir que ler é importante. É necessário criar tempo, acesso, mediação e, sobretudo, exemplo. A criança precisa ver adultos lendo. O estudante precisa enxergar no livro algo além da resposta exigida pelo professor. O trabalhador necessita de educação continuada. A pessoa idosa precisa ser convidada a permanecer intelectualmente ativa.A leitura deve acompanhar a vida inteira: na infância, ajuda a descobrir o mundo; na maturidade, a não se deixar enganar por ele; na velhice, a continuar conversando com ele.Os livros não resolverão sozinhos nossas desigualdades. Não construirão escolas, não substituirão professores nem eliminarão a pobreza. Mas nenhuma sociedade enfrentará seriamente seus problemas se os cidadãos não compreenderem as palavras com que eles são apresentados — e, principalmente, aquelas com que tentam escondê-los.Quem mal lê não apenas mal sabe: também ouve sem distinguir, vê sem compreender e escolhe sem conhecer inteiramente aquilo que está escolhendo.Em Mato Grosso, formar leitores deixou de ser apenas uma aspiração cultural. Tornou-se uma necessidade educacional, econômica e democrática. É preciso abrir livros para que não continuemos fechando portas.*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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