Tribunal de Justiça de MT
Capacitação destaca leitura como ponte para a transformação social no cárcere
Publicado em
2 de junho de 2026por
Da Redação
A remição da pena por meio da leitura representa muito mais do que um benefício legal. Trata-se de uma ferramenta de transformação social capaz de ampliar horizontes, estimular o pensamento crítico e criar novas perspectivas para pessoas privadas de liberdade.
A avaliação foi feita pelo juiz auxiliar da Presidência do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) e coordenador do Eixo Práticas Educativas do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF/TJMT), Pierro de Faria Mendes, durante a abertura da III Capacitação “Práticas de Leitura no Sistema Prisional e Remição da Pena”, realizada nesta terça-feira (2), em formato virtual. O evento prossegue até o dia 03 de junho.
Promovida pelo GMF/TJMT, pela Coordenadoria de Educação de Jovens e Adultos (COEJA) da Secretaria de Estado de Educação e pelo Núcleo de Educação no Sistema Penitenciário (NESP/SAAP/SEJUS-MT), a capacitação reuniu participantes de diversas regiões do estado com o objetivo de qualificar profissionais que atuam na execução das práticas de leitura nas unidades prisionais mato-grossenses.
Segundo o magistrado, a remição pela leitura deve ser compreendida como um instrumento de ressocialização que vai além da redução dos dias de pena.
“A remição pela leitura é um direito de ver sua pena reduzida por meio das práticas literárias. O objetivo é promover a ressocialização a partir da construção de um pensamento crítico. Utilizamos a educação como uma ferramenta de transformação social, de reabilitação cognitiva e de ampliação da visão de mundo, permitindo que a pessoa privada de liberdade conheça novos referenciais e outras possibilidades de vida”, afirmou.
O magistrado destacou ainda que o curso busca fortalecer e disseminar metodologias bem-sucedidas já desenvolvidas nas unidades prisionais do estado, além de promover a troca de experiências entre os profissionais envolvidos com a política educacional no sistema prisional.
“Sabemos que muitos profissionais realizam verdadeiros milagres dentro das unidades e que diversas práticas locais produzem excelentes resultados. Esta capacitação também serve para compartilhar essas experiências e fortalecer o trabalho realizado em todo o estado. O GMF está à disposição para ouvir demandas, esclarecer dúvidas e construir soluções de forma conjunta. Somos uma grande equipe formada pelo Judiciário, pelas secretarias e pelos profissionais que atuam em cada comarca, todos comprometidos com a ressocialização efetiva”, ressaltou.
A importância da educação como instrumento de reconstrução de trajetórias pessoais também foi destacada pela superintendente de Políticas Penitenciárias da Secretaria de Estado de Justiça (Sejus), Gleidiane Assis, que apresentou dados demonstrando a expansão da participação de reeducandos nas ações educacionais desenvolvidas no sistema penitenciário mato-grossense.
“A leitura transforma vidas, gera oportunidades e possibilita a reconstrução de histórias. Em 2023, tivemos 1.497 participantes; em 2024, foram 2.117; em 2025, alcançamos 2.770 participantes; e em 2026, já ultrapassamos a marca de 4 mil participantes. Esses números demonstram a importância dessas ações e o compromisso dos profissionais que atuam diariamente para promover mudanças reais na vida dessas pessoas”, destacou.
Representando a Secretaria de Estado de Educação (Seduc-MT), a superintendente de Equidade e Inclusão, Paula Cunha Souza ressaltou o papel desempenhado pelos professores e pedagogos que atuam nas unidades prisionais.
“Nossos professores e pedagogos conduzem um trabalho fundamental para a reconstrução e transformação social dessas pessoas. A remição pela leitura é uma ação profundamente inclusiva e demonstra que a educação vai muito além do ensino da leitura e da escrita. É um trabalho que merece reconhecimento e constante aperfeiçoamento”, afirmou.
A programação do primeiro dia contou ainda com palestra da assistente técnica nacional do Núcleo de Cidadania do Programa Fazendo Justiça, Mariana Nicolau Oliveira, que abordou as diretrizes da Resolução nº 391/2021 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), norma que regulamenta a remição de pena por meio da leitura.
Durante a apresentação, ela destacou que os processos educativos não se limitam, jamais, a um só ambiente e que o acesso aos livros deve ser compreendido como um direito.
Mariana Nicolau Oliveira destacou que a política de remição pela leitura está diretamente alinhada às metas do Plano Pena Justa. Segundo ela, as ações de leitura e educação prisional previstas atualmente têm como referência o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL).
“Trazer as metas do Plano Pena Justa para o debate é uma grande vitória, porque permite consolidar esforços coletivos em torno da garantia do direito à educação e à leitura para as pessoas privadas de liberdade”, afirmou.
Mariana explicou que o plano trata a educação como um direito inalienável e prevê medidas estruturantes para ampliar o acesso às atividades educacionais dentro das unidades prisionais. A palestrante ressaltou que Mato Grosso já atende a uma das diretrizes previstas, ao possuir um Plano Estadual de Educação Prisional que contempla ações de educação, cultura e esporte.
Outro ponto destacado foi a necessidade de integração entre práticas escolares e não escolares. Conforme explicou, a remição de pena pode ser obtida por diferentes atividades educativas, como participação em projetos culturais, cursos de qualificação profissional e programas de leitura, ampliando as possibilidades de desenvolvimento pessoal e ressocialização.
Mariana também destacou duas metas específicas relacionadas à leitura. A primeira prevê o aumento do número de pessoas privadas de liberdade participantes do processo de remição pela leitura. A segunda busca ampliar e qualificar os acervos bibliográficos das unidades prisionais brasileiras.
Dados apresentados durante a palestra demonstram que unidades que contam com bibliotecas estruturadas registram índices significativamente maiores de participação em projetos de remição. O levantamento também aponta que espaços destinados a atividades culturais, como salas de audiovisual e ambientes para exibição de conteúdos educativos, potencializam outras práticas de aprendizagem dentro do sistema prisional.
Durante a palestra, Mariana Nicolau Oliveira também chamou atenção para o papel das comissões de validação, responsáveis por analisar as atividades realizadas pelas pessoas privadas de liberdade para fins de remição de pena. Segundo ela, é necessário reconhecer a sobrecarga enfrentada por esses grupos e, ao mesmo tempo ampliar as possibilidades de acesso à remição para públicos com diferentes níveis de escolaridade e perfis socioculturais.
“Precisamos compreender as possibilidades de ampliar a remição para pessoas com diferentes graus de escolaridade. A Resolução nº 391 nos oferece mecanismos de inclusão, permitindo que a validação da leitura ocorra por diferentes formas de expressão, como desenhos, narrativas orais, apresentações e outras atividades que demonstrem a realização da leitura”, explicou.
A palestrante ressaltou que a diversidade existente dentro do sistema prisional exige abordagens mais inclusivas, especialmente para pessoas com baixa escolaridade, dificuldades de leitura e escrita ou migrantes que não dominam a língua portuguesa.
“A comissão de validação é esse espaço capaz de garantir o direito à leitura para todos. Precisamos considerar as diferentes realidades e assegurar que a remição pela leitura seja acessível independentemente do nível de escolarização da pessoa privada de liberdade”, afirmou.
Mariana enfatizou ainda que a remição pela leitura não precisa estar necessariamente vinculada a um projeto específico, uma vez que o acesso à leitura constitui um direito previsto na política nacional.
Ao detalhar os critérios de avaliação, ela destacou que o objetivo das comissões não é aferir desempenho escolar ou atribuir notas, mas apenas verificar se a leitura foi efetivamente realizada.
“É importante dizer que não se trata de uma prova ou de uma avaliação pedagógica. A finalidade é identificar se a pessoa leu a obra e conseguiu estabelecer uma relação com o conteúdo apresentado. Não estamos avaliando aproveitamento escolar, nem criando níveis de pontuação. O que se considera é o tempo dedicado à leitura e a comprovação de que essa experiência ocorreu”, concluiu.
Ao apresentar caminhos para ampliar o alcance da remição pela leitura, Mariana Nicolau Oliveira defendeu o fortalecimento das comissões de validação e a estruturação de projetos pedagógicos permanentes dentro das unidades prisionais.
Segundo ela, é fundamental que as ações de leitura estejam integradas aos planos pedagógicos das unidades e dialoguem com as políticas. A proposta é que a leitura seja incorporada a uma estratégia mais ampla de formação e ressocialização.
“É importante pensarmos em projetos estruturados e em como construir planos pedagógicos dentro das unidades prisionais. A remição pela leitura pode ir muito além da simples leitura individual, criando oportunidades de aprendizagem coletiva e desenvolvimento de novas habilidades”, afirmou.
Entre as possibilidades apresentadas estão a criação de monitorias entre pares, em que pessoas privadas de liberdade auxiliam colegas em processo de alfabetização, além da realização de rodas de leitura, clubes do livro e outras atividades coletivas voltadas ao incentivo à leitura.
A palestrante explicou que projetos dessa natureza podem ser submetidos à apreciação do juízo da execução penal para reconhecimento da carga horária e eventual concessão de remição de pena.
“É possível desenvolver diversas atividades vinculadas à leitura. Uma obra teatral, uma produção musical, debates e projetos culturais podem estar associados ao processo de leitura e contribuir para a remição de pena, desde que sejam devidamente estruturados e reconhecidos pelo juízo competente”, destacou.
Mariana também apontou as parcerias com universidades como uma alternativa para fortalecer as ações educacionais e reduzir a sobrecarga das equipes técnicas que atuam nas unidades prisionais.
“Uma das metas nacionais é justamente ampliar as parcerias com instituições de ensino superior. Existem experiências exitosas envolvendo projetos de extensão, pesquisa e atividades culturais que podem contribuir significativamente para o desenvolvimento das práticas de leitura no sistema prisional”, observou.
Outro aspecto destacado foi o papel estratégico dos pedagogos na capacitação das comissões de validação.
“Em um estado com a dimensão de Mato Grosso, é importante pensar no pedagogo como uma referência para orientar e capacitar os demais integrantes das comissões de validação”, recomendou.
Autor: Patrícia Neves
Fotografo:
Departamento: Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude
Published
2 semanas agoon
9 de agosto de 2026By
Da Redação

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.
Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.
Já estava escrito
“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.
Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.
“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.
A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.
Legado construído com exemplo
Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.
Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.
Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.
Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.
Apoio incondicional
Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.
Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.
Adoção
Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.
Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.
Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.
Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.
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