AGRONEGÓCIO

Brasil lidera exportações, mas algodão segue refém de petróleo

Publicado em

O mercado internacional de algodão vive um paradoxo: mesmo com o Brasil consolidado como principal exportador global da fibra, os preços seguem pressionados por fatores macroeconômicos e por um desequilíbrio persistente entre oferta e demanda. A pluma deixou de responder apenas a fundamentos agrícolas e passou a se comportar, cada vez mais, como ativo financeiro sensível ao humor global.

Em 2025, o Brasil embarcou mais de 3 milhões de toneladas, mantendo a liderança mundial conquistada no ano anterior e superando os Estados Unidos, que dominaram o comércio global por quase três décadas . O avanço brasileiro está ancorado em escala, produtividade e logística, com forte presença em mercados asiáticos, especialmente China, Bangladesh e Paquistão, que concentram a indústria têxtil global .

Apesar desse protagonismo, o preço internacional permanece travado. Em 2025, as cotações oscilaram majoritariamente entre 65 e 71 centavos de dólar por libra-peso, sem força para sustentar altas mais consistentes . O motivo está menos na oferta física e mais no ambiente macro: o algodão passou a reagir como ativo de risco, influenciado por juros, câmbio e tensões geopolíticas.

Leia Também:  Justiça concede nova liminar que suspende a cobrança da Contribuição Especial de Grãos

A relação com o petróleo, frequentemente apontada como motor do mercado, é mais ambígua do que parece. Embora a alta da commodity encareça o poliéster e favoreça o algodão na disputa com fibras sintéticas, o efeito líquido tem sido limitado. Isso porque o mesmo petróleo pressiona a inflação global e reduz o consumo de vestuário — elo final da cadeia —, enfraquecendo a demanda por fibra natural.

Além disso, há um fator estrutural pesando sobre o mercado: o crescimento dos estoques globais. Relatórios internacionais indicam revisões sucessivas para cima na oferta mundial, enquanto o consumo segue irregular, sobretudo na Ásia, onde a recuperação da indústria têxtil não se consolidou . Esse descompasso impede que choques pontuais — como clima adverso nos Estados Unidos, se traduzam em altas mais duradouras.

Nesse contexto, a seca em regiões produtoras norte-americanas atua mais como elemento de sustentação do que de valorização efetiva. Os Estados Unidos continuam sendo um player central, ainda que tenham perdido a liderança nas exportações e qualquer risco climático adiciona prêmio às cotações. Ainda assim, o efeito tem sido amortecido pelo excedente global.

Leia Também:  BNDES amplia crédito ao agronegócio com volume recorde de R$ 52,3 bilhões

O resultado é um mercado travado entre forças opostas. De um lado, riscos climáticos e geopolíticos impedem quedas mais acentuadas. De outro, demanda fraca e estoques elevados limitam reações positivas. Para o Brasil, que hoje lidera o comércio global, isso significa operar com margens mais estreitas, apesar do ganho de participação.

A tendência, no curto prazo, é de manutenção desse equilíbrio instável. O algodão segue dependente menos da lavoura e mais do cenário macro , um sinal de que, no atual estágio, a commodity deixou de ser apenas agrícola para se integrar de vez à dinâmica financeira global.

Fonte: Pensar Agro

COMENTE ABAIXO:
Advertisement

AGRONEGÓCIO

Crédito para silos terá juros de 8% em país com gargalo crescente

Published

on

Produtores e cooperativas que pretendem construir, ampliar ou modernizar armazéns já conhecem as condições do Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) para o ano agrícola 2026/27. O crédito, porém, ainda não pode ser contratado: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) informa que a data de abertura dos pedidos será comunicada posteriormente às instituições financeiras.

Projetos de armazenagem de grãos com capacidade de até 12 mil toneladas terão taxa prefixada de até 8% ao ano. Nos demais empreendimentos enquadrados no programa, os juros poderão chegar a 9,5% ao ano.

O limite é de R$ 50 milhões por produtor e por ano agrícola para armazenagem de grãos. Para cooperativas de produção, o teto sobe para R$ 200 milhões. Nos projetos destinados a outros produtos financiáveis, o máximo é de R$ 25 milhões. A participação do BNDES pode alcançar 100% dos itens aprovados.

O prazo de pagamento será de até dez anos, com carência máxima de dois anos. As garantias serão negociadas entre o interessado e a instituição financeira credenciada. O programa ficará vigente até 30 de junho de 2027.

Além dos grãos, o PCA permite financiar armazéns e câmaras frias destinados a frutas, tubérculos, bulbos, hortaliças, fibras, açúcar e determinados derivados. Também podem ser apoiadas reformas, ampliações e modernizações, desde que os equipamentos atendam aos critérios estabelecidos pelo banco.

As novas condições são divulgadas em um momento de pressão crescente sobre a infraestrutura. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a produção brasileira de grãos da safra 2025/26 em 360,8 milhões de toneladas. Já a capacidade útil de armazenagem alcançou 233,8 milhões de toneladas no segundo semestre de 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Leia Também:  Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia

A diferença entre os dois números, contudo, não representa automaticamente o déficit nacional. A produção ocorre ao longo de diferentes safras, e uma mesma estrutura pode receber e expedir mais de um lote durante o ano. Parte dos grãos também segue diretamente para indústrias, portos e consumidores. Ainda assim, a distância entre o crescimento das colheitas e a expansão dos armazéns revela um gargalo estrutural.

Entre 2010 e 2025, a capacidade estática brasileira cresceu, em média, 2,8% ao ano, enquanto a produção avançou 5% ao ano, segundo levantamento do Observatório Nacional de Transporte e Logística, ligado à Infra S.A. Com base na produção de 2023/24, o estudo calculou um déficit potencial de 88,5 milhões de toneladas.

A situação varia fortemente entre as regiões. Naquele levantamento, o Sudeste apresentava capacidade equivalente a 126,8% da produção regional, beneficiado principalmente pela estrutura existente em São Paulo. O Sul atingia 88,2%. No Centro-Oeste, principal região produtora do país, a proporção caía para 57,9%. Nordeste e Norte apresentavam os menores índices, de 54,2% e 45%, respectivamente.

Leia Também:  Em Minas segue até sábado a 19ª edição da Megaleite

Mato Grosso mostra com clareza essa contradição. O Estado possui a maior capacidade instalada do Brasil, com 64,2 milhões de toneladas, segundo o dado mais recente do IBGE. Mesmo assim, por liderar a produção nacional de soja e milho, apresentou no estudo da Infra S.A. a maior necessidade absoluta de armazenagem, estimada em aproximadamente 40,9 milhões de toneladas.

Goiás aparecia com carência próxima de 13 milhões de toneladas. Bahia, Maranhão, Tocantins e Piauí também estavam entre os pontos de maior pressão, refletindo o crescimento da produção em áreas nas quais a infraestrutura não avançou na mesma velocidade. No Sul, apesar da situação comparativamente melhor, Paraná e Rio Grande do Sul ainda registravam insuficiência de capacidade.

Para o produtor, o silo próprio pode reduzir a dependência de armazéns de terceiros, evitar filas durante a colheita e permitir que a venda seja feita em um momento mais favorável. A estrutura também pode diminuir gastos com transporte emergencial e perdas de qualidade.

A decisão exige, porém, um cálculo que vá além da taxa de juros. Construção, secagem, energia, manutenção, seguro, mão de obra, licenciamento e capacidade de utilização ao longo do ano interferem no retorno do investimento. Com as condições já divulgadas, o próximo passo será a abertura efetiva das contratações pelo BNDES.

Fonte: Pensar Agro

COMENTE ABAIXO:
Continuar lendo

Cuiabá

MATO GROSSO

POLÍCIA

FAMOSOS

ESPORTES

MAIS LIDAS DA SEMANA