Ministério Público MT
A Sabedoria do Anonimato: Giannetti e a Difícil Arte de Desaparecer
Publicado em
25 de maio de 2026por
Da Redação
Há livros que parecem nos procurar. Não chegam até nós por acaso, mas precedidos por uma espécie de aval silencioso — não apenas editorial ou acadêmico, mas humano. Foi assim que Imortalidades entrou no meu horizonte de leitura. Depois da publicação de um artigo que escrevi sobre O Anel de Giges, o colega e amigo César Danilo Ribeiro de Novais — uma das vozes mais respeitadas do Tribunal do Júri brasileiro[i] — perguntou-me, quase casualmente: “Você já leu Imortalidades?”. Respondi que havia percorrido outras estações intelectuais de Eduardo Giannetti — O Valor do Amanhã, Felicidade, Autoengano —, mas ainda não havia chegado a esse livro que, pelo próprio título, parece tocar uma das zonas mais sensíveis da experiência humana. Com o crédito que a sugestão dele merecia, comprei a obra. E confesso: ela começou a me inquietar antes mesmo de o pacote chegar à minha porta.Havia uma expectativa difícil de explicar, um incômodo que era tanto intelectual quanto existencial. Os livros anteriores de Giannetti haviam produzido em mim uma sensação rara — a de encontrar um autor capaz de iluminar certos corredores da consciência sem transformá-los em laboratório acadêmico nem em autoajuda filosófica. Há escritores que acumulam conceitos. Giannetti, não. Ele desloca discretamente o leitor do lugar onde estava. Quando percebi, aguardava a leitura não como quem espera apenas mais um volume na estante, mas quase como quem retorna a uma conversa interrompida.E talvez seja exatamente isso que a obra provoque: a sensação de que alguém resolveu colocar em voz alta perguntas que normalmente administramos em silêncio. Afinal, diga sinceramente, caro leitor: em algum momento da vida – numa madrugada qualquer, diante da perda de alguém próximo, durante o susto de um diagnóstico, depois de um aniversário particularmente simbólico ou até num instante banal de cansaço – quem nunca se perguntou o que significa desaparecer? Não desaparecer da sala ou silenciar o grupo de WhatsApp. Desaparecer mesmo. Apagar-se da história.É precisamente nesse território que Giannetti entra, e entra sem espetáculo. Talvez resida aí uma das maiores qualidades do livro. Imortalidades não possui o tom professoral de certos tratados filosóficos escritos para impressionar departamentos universitários, tampouco cai naquela espiritualidade açucarada que tenta transformar a morte numa palestra motivacional do universo. O autor prefere outro caminho: investiga o assunto como quem examina uma antiga ferida humana que nunca cicatrizou completamente.A estrutura da obra acompanha os passos largos do nosso desespero. Aos poucos, Giannetti vai mostrando as diferentes formas pelas quais tentamos sobreviver ao tempo. Primeiro aparecem as promessas mais antigas: a permanência da alma, a transcendência religiosa, a esperança metafísica de que algo em nós sobreviva ao corpo. Depois surgem as estratégias terrenas: os filhos, a linhagem, a obra, a fama, a memória cultural, a tentativa de permanecer através do rastro que deixamos no mundo. O que torna a leitura poderosa é que o autor jamais desmerece essas tentativas. Ele as compreende como manifestações inevitáveis do drama de sermos a estranha espécie que sabe que vai morrer. Um animal condenado não apenas à morte, mas à consciência dela.Aqui o livro toca silenciosamente em Pascal. O homem, dizia o filósofo francês, é apenas um junco — o mais frágil da natureza. Um sopro pode destruí-lo. Mas é um junco pensante. E toda a sua grandeza nasce justamente da consciência da própria precariedade. Giannetti parece caminhar por essa mesma trilha: a nossa miséria e a nossa grandeza têm exatamente a mesma origem. Há também ecos claros de Miguel de Unamuno e seu “sentimento trágico da vida”. O homem deseja permanecer porque existe algo nele que se recusa a aceitar serenamente o próprio apagamento. A razão suspeita do fim; o afeto insurge-se contra ele. Longe de transformar essa busca por transcendência numa patologia simplória, a obra a trata como consequência estrutural da autoconsciência. São ecos que se juntam a Spinoza, Borges, Machado de Assis e Fernando Pessoa — não como exibição ornamental de erudição, mas como testemunhos históricos de uma inquietação universal.Percebemos que as antigas estratégias de transcendência continuam vivas, apenas trocaram de roupa. Hoje não construímos catedrais; construímos perfis. Alimentamos arquivos digitais, marcas pessoais e projetos de reputação permanente. Armazenamos fotografias compulsivamente no rolo da câmera — o almoço de domingo, o sorriso do filho, o pôr do sol na estrada — como se o acúmulo de bytes pudesse impedir o tempo de concluir o próprio trabalho. Nunca uma civilização produziu tantos registros de si mesma e, talvez por isso, nunca tenha temido tanto o esquecimento.Giannetti percebe essa nossa fome com enorme lucidez. Num dos trechos mais impressionantes, ele resgata Heróstrato, o homem que incendiou o templo de Ártemis apenas para eternizar o próprio nome na história. O episódio é devastador porque parece dolorosamente próximo do século XXI. Mudaram os incêndios; o impulso continua idêntico. Há quem destrua reputações, relações e a própria dignidade apenas para garantir alguns segundos a mais na retina pública. Heróstrato seria um fenômeno de engajamento hoje. Mas a análise recusa a caricatura moral: o desejo de permanência não nasce apenas da vaidade vulgar, mas da dificuldade profunda de aceitar a nossa própria dissolução.Contudo, é após atravessar a religião, a descendência e a posteridade que o livro opera sua virada mais bonita. No capítulo dedicado ao “presente absoluto”, Giannetti sugere algo desconcertante: na tentativa obsessiva de sobreviver ao tempo, frequentemente deixamos de viver dentro dele. Sacrificamos o hoje em nome de um amanhã que nunca chega. Trabalhamos além da conta, adiamos o abraço, arquivamos o afeto e transformamos a existência numa preparação permanente para a vida, como se existisse um momento ideal para finalmente começarmos a existir.A morte, então, deixa de ser apenas a inimiga. Ela passa a ser aquilo que confere peso dramático à existência. Se fôssemos eternos, haveria urgência? Haveria motivo real para escolher, amar ou pedir perdão nesta tarde? A eternidade transformaria tudo em adiamento. A finitude não empobrece a experiência; ela é o que dá forma ao amor, à criação e à coragem. Em vez de nos deixar deprimidos, essa percepção nos devolve ao café que esfria na xícara, ao toque áspero do papel, ao silêncio da casa. Deixa-nos conscientes.Vivemos a era da promessa técnica. Enquanto leio Giannetti, as notícias me lembram que laboratórios pesquisam reprogramação celular, inteligência artificial aplicada à biologia e promessas de “imortalidade digital”. O transumanismo contemporâneo tenta tratar o envelhecimento como um erro de código, um problema técnico e não um destino metafísico. Mas é aqui que precisamos tensionar o autor: o que acontecerá com nossa espessura dramática se a técnica realmente começar a romper a barreira da finitude? O que restará dos nossos afetos se a longevidade for estendida indefinidamente? Talvez a pergunta mais perturbadora não seja mais como aceitar o fim, mas o que restará de nós se escaparmos dele.Mesmo diante da fantasia tecnológica, a suspeita existencial permanece intacta. Continuamos querendo permanecer porque o homem não quer apenas viver; ele quer continuar significando depois de desaparecer. Construímos livros, filhos, cidades e narrativas porque resistimos à ideia de passar pelo mundo como quem jamais esteve aqui. Inclusive este artigo que escrevo agora, e que você lê nesta página, participa da mesma ilusão: é um pequeno rastro de texto flutuando no vazio, tentando capturar um pensamento antes que o tempo o leve. Ele também é mortal.Mas ao fechar o livro, sobra uma última possibilidade, mais silenciosa e difícil. E se existir também uma arte de desaparecer? Não como desistência ou abandono, mas como a aceitação serena de que nem toda existência precisa se transformar em monumento. Há quem atravesse os dias discretamente, mude o mundo de dois ou três indivíduos através do afeto puro, e parta sem alarde. Não serão tema de biografias, não terão estátuas nem páginas eternizadas nos servidores da internet. Ainda assim, a vida deles terá sido plena.Há uma liberdade profunda em desapegar-se da necessidade de ser projetado no olhar futuro dos outros. O homem moderno está exausto de administrar a própria imagem, exausto de transformar a vida em uma autobiografia contínua para consumo alheio. Algumas coisas são belas justamente porque terminam. Desejamos a eternidade, mas é o limite que desenha a ternura. No fundo, a nossa civilização inteira — das pirâmides do Egito aos bancos de dados digitais — parece ser apenas a tentativa contínua e comovente de responder àquela pergunta antiga, que se recusa a sumir: como suportar a consciência da nossa finitude sem deixar de amar a vida?
*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.
[i] César Danilo Ribeiro de Novais é Promotor de Justiça no Ministério Público de Mato Grosso e autor de A Defesa da Vida no Tribunal do Júri, obra atualmente em sua quarta edição e considerada uma das mais respeitadas referências contemporâneas sobre o júri popular brasileiro.
Fonte: Ministério Público MT – MT
Ministério Público MT
MP apoia projeto de balé e participa da entrega de uniformes em Juína
Published
8 minutos agoon
15 de outubro de 2026By
Da Redação
A 1ª Promotoria de Justiça Cível de Juína (a 735 km de Cuiabá) e o Instituto Saberes realizaram, no último sábado (10), a entrega de uniformes às 20 alunas do projeto social de balé Passos que Transformam, em evento promovido no Studio de Ballet Menina dos Olhos. A iniciativa beneficia crianças em situação de vulnerabilidade social e conta com apoio do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), por meio do Banco de Projetos, Fundos e Entidades (Bapre).Idealizado pelo promotor de Justiça Dannilo Preti Vieira, o projeto tem como objetivo ampliar o acesso ao balé para crianças que, em razão das condições socioeconômicas, dificilmente teriam oportunidade de participar da atividade. Selecionadas por meio de processo de inscrição, as alunas recebem aulas gratuitas e toda a estrutura necessária para a prática da modalidade. A iniciativa recebeu investimento de aproximadamente R$ 114,5 mil por meio do Bapre.A entrega dos uniformes reuniu as participantes, familiares e representantes das instituições parceiras. Durante a solenidade, o promotor de Justiça destacou a importância de iniciativas que promovam o acesso à cultura, ao lazer e ao desenvolvimento social de crianças e adolescentes. “Para o Ministério Público é um orgulho participar de um projeto como esse. O balé social abre portas para crianças que, muitas vezes, não teriam acesso a esse tipo de atividade, contribuindo para o desenvolvimento pessoal e social delas”, ressaltou Dannilo Preti Vieira.O promotor de Justiça também enfatizou a relevância da atuação integrada entre instituições para viabilizar ações com impacto social. Segundo ele, o Instituto Saberes foi um parceiro fundamental para transformar a proposta em realidade, fortalecendo o compromisso conjunto com a promoção da cultura e da inclusão social em Juína.A presidente do Instituto Saberes, Lorena Boaventura, destacou que o projeto utiliza a dança como ferramenta de formação cidadã, estimulando valores como disciplina, convivência, autoestima e autoconfiança. Já a professora Thais Landim, responsável pelas aulas, ressaltou que as participantes encontram no balé um espaço de aprendizagem, socialização e desenvolvimento pessoal.(Com informações do Instituto Saberes)
Fonte: Ministério Público MT – MT
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