BRASIL
Masp inaugura novas exposições sobre artes indígenas
Publicado em
20 de outubro de 2023por
Da RedaçãoAs histórias indígenas, a tapeçaria diné/navajo e os saberes tupinambás são os temas das novas exposições que o Museu de Arte de São Paulo (Masp) está inaugurando a partir desta sexta-feira (20). As três novas mostras compõem o Ano das Histórias Indígenas, tema que o museu escolheu para apresentar e discutir a diversidade e a complexidade dessas culturas.

A primeira dessas exposições – e a maior delas – é a mostra coletiva Histórias Indígenas, que vai apresentar 285 obras de aproximadamente 170 artistas indígenas e que traça uma perspectiva desde o período anterior à colonização europeia até os dias atuais. Por meio da arte e das culturas visuais, o público poderá conhecer as diferentes perspectivas das histórias indígenas da América do Sul, América do Norte, Oceania e Região Nórdica. A curadoria é de Edson Kayapó, Kássia Borges Karajá e Renata Tupinambá, além de diversos curadores internacionais convidados.
“Todas essas artes que serão expostas retratam a realidade dos povos indígenas não só do Brasil, mas de outros países. Elas representam as cosmologias dos povos indígenas, sua história, seus desafios. É uma forma de tentar dar visibilidade a essas realidades tão pouco conhecidas pelas comunidades internacionais e pela sociedade brasileira”, disse Edson Kayapó, curador de artes indígenas no Masp e professor de história indígena no Instituto Federal da Bahia (IFBA).
Por história, a mostra entende tanto os relatos históricos quanto as narrativas pessoais. “São histórias no plural, trazendo a ideia de que há uma diversidade muito grande de memórias, cosmologias, tradições, línguas e de modos próprios de organização social de cada povo. São muitas histórias e muitas formas de produzir arte porque, obviamente, essas diversidades históricas e sociolinguísticas repercutem nas artes. Os artistas indígenas vão produzir artes que dialogam com seus povos”, disse o curador.
Em entrevista à Agência Brasil, Kayapó afirmou que a exposição é também atual e política, pois reflete sobre a preservação do meio ambiente e as mudanças climáticas. “As artes indígenas, especialmente essas que serão exibidas, são posicionadas. Todas as artes produzidas por povos indígenas são posicionadas politicamente e esse posicionamento tem a ver com nossos pertencimentos, nossas identidades étnico-raciais e cosmologias”, disse o curador. “As artes indígenas são também uma expressão política que tem a ver com o tempo e com os desafios que estão postos”, ressaltou.
Ele lembrou que não só a temática ambiental permeia a exposição, como também o processo de demarcação de territórios indígenas. “Há também, no caso do Brasil, um posicionamento político sobre a demarcação dos nossos territórios originários, inclusive para que possamos fazer com bastante tranquilidade o movimento, que é necessário em todo o mundo, de preservação dos ecossistemas e biomas. Estamos diante de uma crise mundial, uma crise climática internacional que atinge todas as pessoas igualmente, e a comunidade mundial está conclamando pela proteção das florestas, dos rios e de todos os biomas. Os povos indígenas fazem isso por excelência, de maneira ancestral, imemorial. Se, de fato, o objetivo é preservar o meio ambiente, que demarquem os territórios indígenas porque, certamente, o meio ambiente será preservado”, defendeu.
A mostra foi dividida em oito núcleos, que se iniciam com o tema Ativismo, reunindo trabalhos de diferentes movimentos sociais indígenas, em formatos variados como bandeiras, fotografias, vídeos, pinturas e pôsteres. “Esse núcleo Ativismo é para nós, indígenas, muito significativo porque traz a voz do movimento indígena organizado”, explicou o curador. Nessa exposição, por exemplo, haverá um vídeo com importante discurso de Ailton Krenak na Assembleia Constituinte de 1987, em que ele faz a defesa dos povos originários.
A mostra, feita em colaboração com o Kode Bergen Art Museum, vai ocupar as galerias do primeiro andar e segundo subsolo do museu e ficará em cartaz até 25 de fevereiro.
Obras têxteis
A segunda mostra, que começa hoje no Masp, é uma individual da artista diné/navajo Melissa Cody, a primeira dela individual na América Latina. Serão apresentadas 26 obras têxteis, produzidas por tradicional tear navajo, que mesclam símbolos e padrões tradicionais da tapeçaria desse povo e trazem referências pessoais da artista.
Chamada de Melissa Cody: céus tramados, a exposição ocupa a galeria localizada no primeiro subsolo do museu e tem curadoria de Isabella Rjeille e de Ruba Katrib. “Melissa Cody tem 40 anos de idade e é uma artista navajo/diné, um povo indígena dos Estados Unidos que habita tradicionalmente a região do Arizona [diné é a forma utilizada pelos indígenas para se referirem a esse povo e navajo é a forma utilizada por pessoas não indígenas]. Ela é uma artista que trabalha com tecelagem, técnica tradicional e milenar do povo navajo”, explicou Isabella Rjeille.
Na cosmovisão diné/navajo, a tecelagem é uma tecnologia transmitida às mulheres pela figura sagrada de Na’ashjéii Asdzáá, a Mulher-Aranha. “A Mulher-Aranha é a figura sagrada que desce dos céus, do território sagrado, para o povo diné e ensina as mulheres e homens a tecerem”, disse a curadora.
Herdeira desse conhecimento ancestral, Cody faz parte da quarta geração de artistas de sua família. Em suas obras, mescla símbolos e padrões históricos da tapeçaria navajo, com referências que vão das paisagens de seu território de origem ao universo pop do videogame e da música. “Ela mesma fala que cresceu dentro dos ensinamentos tradicionais de sua cultura navajo e da cultura ocidental”, afirmou Isabella.
O trabalho de Cody também reflete as influências que a tecelagem navajo sofreu ao longo da história, seja pelas trocas culturais ou pelas violentas migrações a que foram submetidos. O uso das cores vibrantes no processo dessa tecelagem, por exemplo, remete ao movimento “Germantown Revival”, que nasceu após o trágico episódio conhecido como a “Longa Caminhada” (1863–1866).
Com o objetivo de expulsar os navajo de seu território, militares queimaram suas casas e destruíram rebanhos, forçando-os a migrar do Arizona ao Novo México, para que fossem aprisionados no campo militar de Bosque Redondo, em Fort Sumner, atual Novo México, e obrigados a assimilar a cultura estadunidense. Durante esse processo de migração forçada, as tecelãs criaram estratégias para continuar trabalhando, desfiando cobertores oferecidos por oficiais e incorporando seus fios – produzidos a partir de uma lã comercial e tingida por anilina – nas tecelagens. “Foi realmente um processo de inviabilizar a vida do povo navajo ali naquela região, fazendo com que fossem expulsos e tivessem que migrar, caminhar a pé, do Arizona até o Novo México, uma longa caminhada que matou grande parte deles. Quem chegou ao campo militar viveu de forma muito precária e sofreu com doenças e desnutrição”.
Apesar disso, houve resistência. “As mulheres são centrais para a manutenção das comunidades. Elas começaram a desfazer mantos dados pelos militares para fazer suas próprias tecelagens e mantos. Elas começaram a incorporar esse tipo de lã comercial, pintada com anilina, muito colorida e vibrante, aos seus trabalhos. Esse momento de absoluto confinamento e tragédia foi de liberdade experimental. Elas conseguiram, a partir dali, manter a comunidade e fazer sobreviver a cultura navajo”, explicou a curadora.
Cody também é conhecida por suas tecelagens de grandes proporções, como a monumental The Three Rivers [Os três rios], produzida durante a pandemia da covid-19 e dividida em quatro partes.
Na exposição será possível ver não somente suas obras, mas os instrumentos que utiliza para a tecelagem. Também há fotos que mostram como esse trabalho é desenvolvido. A mostra fica em cartaz até 21 de janeiro.
Sala de vídeo
Além das duas mostras, o Masp inaugura hoje uma exposição em vídeo, com filme inédito sobre o trabalho da artista Glicéria Tupinambá com o diretor e roteirista Alexandre Mortágua. A curadoria é de Renata Tupinambá.
Glicéria Tupinambá é artista, ativista e educadora indígena da aldeia Serra do Padeiro, localizada na Terra Indígena Tupinambá de Olivença, no sul da Bahia. Ela vem desenvolvendo um trabalho de resgate e de reconexão com os saberes de sua aldeia. Um dos trabalhos, por exemplo, tem sido o processo de confecção de mantos tupinambás, lembrando o modo de feitura e dos rituais que a indumentária representa.
Em setembro, em entrevista à Agência Brasil, Glicéria explicou que seu trabalho deriva de conexão com um Manto Tupinambá, que foi levado de seus ancestrais há muitos anos e que estava em exibição na França. Esse é um dos mantos tirados dos tupinambás e levados para a Europa e que são considerados pelos indígenas como anciãos ou símbolo de memória e resistência. Um desses mantos, que se encontra na Dinamarca, está em processo de repatriação e deve voltar ao Brasil no início de 2024.
“Na França, foi a primeira vez que o manto falou comigo. Naquele momento, descobri que o manto era um ancestral, uma entidade e que estava se comunicando. E ele me trazia a mensagem de que os mantos eram portados por mulheres e eram feitos por mulheres. E que eu deveria buscar isso. Então voltei para a aldeia e fui confeccionar esse manto, encontrando pontos e fragmentos que estavam com minhas tias-avós”, disse Glicéria à reportagem na ocasião.
O vídeo que será apresentado no Masp mostra o trabalho feito por Glicéria e que ressignifica a figura do manto. É também um filme sobre resistência do povo tupinambá e uma cultura que podia estar adormecida, mas que emerge e se mostra transformadora.
Em uma de suas cenas mais poéticas, um drone faz uma imagem aérea de Glicéria vestindo o manto e dando voltas em torno de si. “Esse filme é sobre a obra artística da Glicéria, sobre o manto tupinambá que ela confeccionou na Serra do Padeiro. Hoje o povo tupinambá está concentrado em dois estados: Pará e Bahia, com várias comunidades. É um povo que, por muito tempo, foi dito como extinto nos livros de história”, explicou Renata Tupinambá à reportagem.
“Esses mantos antigos, que estão na Europa, são vistos como ancestrais vivos, os que estão sendo feitos atualmente são diferentes. É de muita riqueza e de muita resistência o que a Glicéria produziu. E o vídeo mostra como foi esse processo sendo ela mãe, tupinambá, da Serra do Padeiro. O manto ali representa a Serra do Padeiro e mostra a diferença com outras comunidades também, com outra forma de organização”, contou a curadora.
O vídeo, disse a curadora, não só apresenta essa ligação de Glicéria com sua cultura ou seu trabalho artístico, mas é também testemunho da resistência dos tupinambás, povo que foi declarado extinto, mas que ainda tem forças para lutar pela demarcação da terra. “O próprio manto tem mais anos de existência que o Brasil. Estamos falando de culturas que são mais antigas que o próprio Brasil. O Brasil é jovem na semente das culturas indígenas. Então, quando vemos o manto, mais antigo que o próprio país, estamos mostrando como essa cultura é forte, como ela permaneceu e como esse território tem uma história e uma memória que não serão apagadas”. O vídeo poderá ser assistido até o dia 3 de dezembro.
Outras atividades
Além das exposições, o Masp promove neste sábado (21) um grande seminário internacional que terá a participação de curadores e de artistas que integram Histórias Indígenas. O encontro começa às 10h no auditório do museu e será gratuito e aberto ao público. Haverá transmissão online pelo Youtube do Masp. No domingo (22), haverá oficina com a artista Violeta Quispe, ensinando técnicas de pintura sobre madeira. A atividade precisa de inscrição prévia.
Para entrar no museu, o agendamento online é obrigatório e pode ser feito no link https://masp.org.br/visite#visit-tickets. O Masp tem entrada gratuita às terças-feiras e também nas primeiras quintas-feiras de cada mês.
Mais informações sobre as três mostras podem ser obtidas no site do museu.
Fonte: EBC GERAL
BRASIL
Operação na Maré, no Rio, combate lavagem de dinheiro do tráfico
Published
2 anos agoon
19 de agosto de 2024By
Da RedaçãoPoliciais da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) estão no conjunto de favelas da Maré, no Rio de Janeiro, nesta segunda-feira (13), para uma nova ação contra a lavagem de dinheiro do tráfico na região. A Polícia Militar e a Secretaria Municipal de Ordem Pública também participam da operação.

É a terceira fase da operação com o objetivo de dar continuidade às demolições de imóveis construídos pela organização criminosa, especialmente na comunidade do Parque União.
Empreendimentos
Conforme as investigações, há anos os criminosos usam a localidade para a construção e abertura de empreendimentos e, dessa forma, conseguem lavar o capital obtido com a venda de drogas. “Os agentes apuraram ainda a participação de funcionários de órgãos representativos da comunidade no esquema”, informou a Polícia Civil, em nota.
Na operação de hoje, os policiais recuperaram na Maré uma carga que havia sido roubada. Na terça-feira passada (13), durante a fase anterior da ação, a polícia localizou um apartamento de luxo usado por traficantes. O imóvel foi demolido.
Fonte: EBC GERAL
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