AGRONEGÓCIO
Clima causa perdas de R$ 455,5 bilhões e ameaça infraestrutura do agro
Publicado em
20 de setembro de 2026por
Da Redação
Estradas interrompidas, pontes destruídas, lavouras inundadas, reservatórios vazios e falhas no fornecimento de energia transformaram o clima em um dos principais riscos à produção agropecuária brasileira. Entre 2015 e 2024, eventos extremos atingiram 84,5% dos municípios do País e provocaram R$ 455,5 bilhões em danos materiais e prejuízos públicos e privados.
Para o produtor rural, as perdas não ficam restritas à porteira. Enchentes, secas, vendavais e deslizamentos também comprometem o transporte de insumos, o escoamento das safras e o funcionamento de armazéns, frigoríficos, cooperativas e agroindústrias. A interrupção de energia ou das telecomunicações pode paralisar sistemas de irrigação, aviários, granjas, ordenha, resfriamento e processamento.
O levantamento do programa AdaptaCidades, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), mostra que 4.708 dos 5.570 municípios brasileiros registraram algum desastre no período analisado. Aproximadamente 1,7 milhão de moradias foram danificadas e outras 293 mil ficaram destruídas.
Os registros oficiais contabilizam 324,6 milhões de ocorrências de pessoas afetadas. O número não representa brasileiros diferentes, porque uma mesma pessoa pode ter sido atingida mais de uma vez ao longo dos dez anos. Desse total acumulado, 113,4 milhões de registros envolvem impactos diretos, como mortes, ferimentos, doenças, desabrigo, desalojamento ou desaparecimento.
A frequência dos episódios também aumentou. Entre 2020 e 2023, o Brasil registrou 7.539 desastres associados às chuvas, ante 2.335 durante toda a década de 1990. O avanço de 222,9% foi identificado em estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
A agropecuária está entre as atividades mais expostas porque depende diretamente da temperatura, da disponibilidade de água e da regularidade das chuvas. Ao mesmo tempo, grande parte da produção está distante dos principais corredores logísticos e utiliza estradas municipais com pouca pavimentação, drenagem insuficiente e manutenção irregular.
Quando uma estrada rural deixa de oferecer condições de tráfego, fertilizantes, sementes, defensivos, rações e combustíveis não chegam às propriedades no momento necessário. No sentido contrário, leite, frutas, hortaliças, animais e grãos podem não alcançar as unidades de beneficiamento, os frigoríficos ou os portos dentro dos prazos comerciais.
As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul mostraram a dimensão desse risco. Somente a agricultura e a pecuária acumularam perdas superiores a R$ 5,3 bilhões nos municípios que declararam situação de emergência. O desastre também atingiu cooperativas, silos, agroindústrias, rodovias, pontes e estruturas utilizadas para armazenar e transportar a produção.
A exposição não se limita às regiões sujeitas a enchentes. Análise do Banco Central (BC), ao comparar os períodos de 2000 a 2004 e de 2019 a 2023, identificou aumento de temperatura em aproximadamente 4,3 mil municípios e redução das chuvas em outros 4,3 mil.
Nos 558 municípios que apresentaram as maiores quedas de precipitação estavam concentrados R$ 122,5 bilhões em operações ativas de crédito rural em junho de 2024. O valor correspondia a pouco mais de 17% da carteira nacional e mostra que parte relevante do financiamento agropecuário está aplicada em regiões submetidas a alterações no regime de chuvas.
O Brasil elevou os investimentos em infraestrutura para aproximadamente R$ 280 bilhões em 2025, recorde da série acompanhada pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). O montante cresceu 3% em relação ao ano anterior, correspondeu a 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) e teve cerca de 80% dos recursos provenientes do setor privado.
O avanço oferece uma oportunidade para incorporar a adaptação climática aos novos projetos. O volume investido, entretanto, ainda está distante do necessário para superar os gargalos acumulados pelo País. Estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica a necessidade de aproximadamente R$ 550 bilhões por ano, equivalentes a 4,65% do PIB, durante duas décadas.
Isso significa que o investimento atual representa pouco mais da metade do volume anual considerado necessário. O desafio não é apenas ampliar a infraestrutura, mas evitar que obras recém-construídas sejam perdidas ou precisem de reconstrução após a repetição de eventos extremos.
Os R$ 455,5 bilhões em prejuízos climáticos não devem ser comparados diretamente com os R$ 280 bilhões investidos em infraestrutura. O primeiro valor reúne danos acumulados durante dez anos, enquanto o segundo corresponde aos investimentos de apenas um ano e abrange diferentes setores. Os números, porém, demonstram a pressão simultânea para ampliar a estrutura existente e recuperar aquilo que foi destruído.
No meio rural, a adaptação passa por estradas com sistemas adequados de drenagem, pontes e bueiros dimensionados para volumes maiores de água e redes de energia e comunicação menos sujeitas a interrupções. Armazéns, ferrovias, hidrovias e terminais portuários também precisam considerar os riscos de enchentes, estiagens prolongadas e mudanças nos níveis dos rios.
Dentro das propriedades, práticas de conservação do solo, cobertura vegetal, terraceamento, drenagem, reserva de água, irrigação eficiente e diversificação da produção ajudam a reduzir a vulnerabilidade. O planejamento precisa ser acompanhado por informações meteorológicas, assistência técnica, crédito para adaptação e seguro rural com alcance suficiente para proteger a renda.
O AdaptaCidades foi criado para apoiar Estados e municípios na elaboração de planos de adaptação. Para que os resultados cheguem ao campo, esses projetos precisam contemplar estradas vicinais, travessias, abastecimento de energia, comunicação, armazenamento, defesa civil rural e rotas utilizadas pelo transporte de alimentos e insumos.
O recorde de investimentos representa um ponto de partida, mas o avanço da produção brasileira exigirá infraestrutura preparada para um clima mais instável. Para o produtor, prevenção significa menos dias de máquinas paradas, menor custo logístico, redução das perdas e maior segurança para decidir quanto plantar, investir e contratar.
*Imagem: reprodução/victor da matta noticias/JARDIM ALEGRE – PARANA
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIO
Um terço dos produtores rurais brasileiros já utiliza IA; veja como aplicar na sua propriedade
Published
2 horas agoon
21 de setembro de 2026By
Da Redação
A inteligência artificial já está presente em 32% das empresas, cooperativas e propriedades rurais consultadas em levantamento com profissionais do agronegócio. A tecnologia começa a sair dos escritórios e chegar às decisões de plantio, irrigação, aplicação de insumos, controle de pragas, manutenção de máquinas, pecuária e comercialização.
O percentual não permite concluir que o Brasil esteja atrasado. A pesquisa ouviu 197 profissionais e não possui abrangência suficiente para representar todo o setor. Além disso, ainda não existe uma estatística internacional padronizada que permita comparar diretamente o uso de inteligência artificial nas propriedades de diferentes países.
O conceito também varia entre os levantamentos. Algumas pesquisas consideram apenas sistemas que aprendem com dados e produzem previsões. Outras incluem agricultura de precisão, sensores, drones, imagens de satélite, pilotos automáticos e plataformas digitais, mesmo quando essas ferramentas não utilizam inteligência artificial em todas as suas funções.
Uma pesquisa internacional realizada com cerca de 4,4 mil produtores de nove países ajuda a dimensionar a digitalização do campo. Nos Estados Unidos, 61% dos entrevistados utilizavam soluções de agronomia digital, 51% adotavam equipamentos de agricultura de precisão e 38% empregavam sensoriamento remoto. Na América Latina, 49% usavam ferramentas digitais para acompanhar a produtividade.
O mesmo levantamento apontou que 75% dos produtores latino-americanos consultados utilizavam controladores de seção em pulverizadores, ante 78% na América do Norte e 49% na União Europeia. Esses equipamentos evitam sobreposição durante a aplicação, mas não devem ser classificados automaticamente como inteligência artificial.
Diante dessas diferenças, os 32% registrados no levantamento brasileiro indicam uma adoção relevante, embora ainda concentrada. Outros 56% dos participantes afirmaram não utilizar IA e 12% não souberam responder. Parte desses últimos pode empregar sistemas com inteligência artificial embarcada sem identificar a tecnologia pelo nome.
Na prática, a IA funciona a partir da coleta e da comparação de informações. Sensores, máquinas, estações meteorológicas, câmeras, drones, satélites e sistemas de gestão geram dados sobre solo, clima, plantas, animais, equipamentos, custos e produtividade. Os programas procuram padrões nesse conjunto e transformam as informações em alertas, previsões ou recomendações.
Uma câmera instalada numa máquina, por exemplo, pode registrar milhares de imagens enquanto percorre a lavoura. O sistema compara as plantas fotografadas com exemplos usados em seu treinamento, diferencia a cultura das invasoras e indica onde o herbicida deve ser aplicado. Em equipamentos compatíveis, o acionamento pode ocorrer automaticamente e apenas no ponto necessário.
Na irrigação, imagens térmicas e sensores permitem acompanhar a temperatura das folhas, a umidade do solo e as condições atmosféricas. Plantas submetidas à falta de água apresentam mudanças que podem ser reconhecidas pelo sistema antes que o estresse seja facilmente percebido a olho nu. A informação ajuda a definir quais áreas precisam ser irrigadas e em que quantidade.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) participa do desenvolvimento de uma tecnologia que analisa a temperatura das folhas para identificar a necessidade de água. A aplicação busca evitar tanto a deficiência hídrica quanto o desperdício provocado pela irrigação uniforme de talhões com condições diferentes.
No manejo de pragas, câmeras e armadilhas eletrônicas podem reconhecer insetos, contar ocorrências e transmitir alertas. Um sistema desenvolvido para o bicudo-do-algodoeiro identifica os exemplares capturados e envia os dados para um aplicativo. Dessa forma, o acompanhamento deixa de depender apenas da visita manual a cada armadilha.
A análise de imagens de satélite ou drones também permite localizar falhas de plantio, manchas com desenvolvimento irregular, erosão, deficiência nutricional e possíveis focos de doenças. O produtor recebe um mapa das áreas que precisam ser vistoriadas, reduzindo o tempo gasto para encontrar problemas em grandes extensões.
Na aplicação de sementes e fertilizantes, a inteligência artificial pode cruzar mapas de solo, relevo, produtividade e histórico de manejo. A partir desses dados, divide a propriedade em zonas e ajuda a calcular taxas diferentes dentro do mesmo talhão. O objetivo é evitar desperdício nas áreas de menor resposta e aproveitar melhor o potencial das mais produtivas.
Durante a safra, modelos computacionais podem combinar área cultivada, desenvolvimento das plantas, clima e histórico de produtividade para estimar o volume que deverá ser colhido. A previsão melhora o planejamento de máquinas, trabalhadores, fretes, armazéns e contratos de venda.
A tecnologia também pode acompanhar tratores, colheitadeiras e pulverizadores. Informações sobre consumo de combustível, temperatura, pressão, vibração e desempenho dos componentes ajudam a identificar alterações que costumam anteceder uma falha. A manutenção pode ser programada antes que a máquina pare durante uma janela curta de operação.
Na pecuária, câmeras e sensores acompanham peso, deslocamento, alimentação e comportamento dos animais. Mudanças de padrão podem sinalizar problemas sanitários, reprodutivos ou nutricionais. Sistemas de visão computacional também são testados para estimar o desenvolvimento dos bovinos e auxiliar na definição do momento de abate.
A IA pode ser utilizada mesmo sem máquinas sofisticadas. Plataformas de gestão conseguem organizar notas fiscais, custos, estoques, aplicações, contratos e resultados por talhão. Ao reunir essas informações, o sistema pode apontar quais áreas apresentam maior custo, onde a produtividade está abaixo do histórico e quais despesas aumentaram entre uma safra e outra.
Ferramentas de inteligência artificial generativa também podem ajudar a resumir contratos, comparar orçamentos, elaborar relatórios e organizar informações administrativas. Elas não devem, contudo, ser utilizadas isoladamente para definir dosagens, diagnosticar doenças ou recomendar defensivos. Esses sistemas podem produzir respostas erradas com aparência convincente.
A confiabilidade depende da qualidade dos dados. Sensores descalibrados, mapas incompletos e registros financeiros incorretos levam a análises igualmente ruins. A recomendação precisa ser conferida no campo e validada pelo produtor ou por profissional habilitado antes de se transformar em uma decisão agronômica.
O custo permanece entre as principais barreiras, mas adotar IA não exige necessariamente comprar drones, servidores ou robôs. Cooperativas, consultorias e empresas de assistência técnica podem fornecer imagens, mapas e análises como serviço. Em outros casos, a inteligência já está incorporada a máquinas, aplicativos e plataformas utilizados na propriedade.
O melhor ponto de partida é escolher um problema mensurável. O produtor pode testar a tecnologia para reduzir consumo de água, localizar plantas daninhas, prever manutenção, controlar combustível ou organizar custos. A comparação entre uma área assistida e o manejo anterior permite verificar se a economia ou o ganho de produtividade paga o investimento.
A inteligência artificial não substitui a experiência do produtor nem a responsabilidade técnica. Sua vantagem é processar rapidamente milhares de informações e apontar situações que merecem atenção. Quando resolve um problema concreto e entrega retorno comprovável, deixa de ser uma promessa distante e passa a funcionar como mais uma ferramenta de gestão da propriedade.
SERVIÇO
O produtor não precisa comprar um drone, trocar o maquinário nem contratar um sistema caro para começar. O primeiro passo é escolher um problema específico da propriedade, como consumo elevado de combustível, desperdício de água, falhas na aplicação, dificuldade para localizar pragas ou falta de controle dos custos.
Verifique o que já está disponível
Tratores, colheitadeiras, pulverizadores, ordenhadeiras e sistemas de irrigação mais recentes podem gerar dados e oferecer recursos de automação ou inteligência artificial que não estão sendo utilizados. O produtor deve consultar o fabricante, a concessionária ou a assistência técnica para saber quais funções estão incluídas no equipamento.
Organize os dados da propriedade
A inteligência artificial depende de informações confiáveis. Mapas de produtividade, análises de solo, registros de aplicação, consumo de combustível, chuvas, custos, manutenção, mortalidade e desempenho dos animais podem alimentar os sistemas. Quanto melhor o histórico, mais úteis tendem a ser as análises.
Procure assistência técnica
Cooperativas, sindicatos rurais, empresas estaduais de extensão, unidades do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), consultores e profissionais das ciências agrárias podem ajudar a identificar aplicações adequadas. Muitas soluções são oferecidas como serviço, sem a necessidade de o produtor comprar sensores, drones ou programas.
Comece por uma área pequena
A recomendação é testar a ferramenta em um talhão, pivô, lote de animais ou conjunto de máquinas. O resultado deve ser comparado com o manejo anterior, considerando economia de insumos, ganho de produtividade, redução de perdas, horas de trabalho e custo da tecnologia.
Calcule o retorno
Antes de contratar, o produtor deve somar mensalidades, instalação, equipamentos, treinamento, manutenção e conectividade. A economia ou receita adicional precisa superar esses gastos em prazo compatível com a propriedade. Promessas de resultado sem demonstração em condições semelhantes merecem cautela.
Confira o contrato e a proteção dos dados
É importante saber quem poderá acessar as informações da propriedade, onde elas serão armazenadas e se poderão ser compartilhadas com terceiros. O contrato também deve informar como o produtor recupera seus dados caso decida trocar de fornecedor.
Valide as recomendações
Alertas produzidos por inteligência artificial devem ser conferidos no campo. Diagnósticos de doenças, doses de produtos, aplicações de defensivos e decisões sanitárias precisam respeitar a legislação, as bulas e a orientação de profissionais habilitados.
Onde aprender
O Senar Play oferece gratuitamente a trilha “Inteligência Artificial aplicada ao agro”, além do curso “Inteligência Artificial no Campo”, com 20 horas, aulas on-line e início imediato. A plataforma também mantém cursos de agropecuária digital, agricultura de precisão, sensores e mapeamento.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) disponibiliza capacitações pela plataforma E-Campo e conteúdos de assistência técnica no Ater+ Digital. Cooperativas, sindicatos e administrações regionais do Senar também podem informar sobre treinamentos presenciais e assistência disponível em cada Estado.
Ferramentas de IA generativa podem ser usadas para organizar planilhas, comparar orçamentos, resumir documentos e preparar relatórios. Informações financeiras, contratos, documentos pessoais e dados estratégicos da propriedade, entretanto, não devem ser inseridos em plataformas públicas sem a verificação das regras de privacidade.
Fonte: Pensar Agro
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