AGRONEGÓCIO

10ª edição do Farm Show consolida Primavera do Leste como polo do agro

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A Farm Show MT, marcada para 10 a 13 de março em Primavera do Leste (distante 235 km da capital, Cuiabá), em Mato Grosso, completa uma década em um momento simbólico para o agronegócio brasileiro: o de profissionalização das feiras agrícolas como plataforma efetiva de comercialização. Longe de ser apenas vitrine tecnológica, o evento passou a funcionar como canal direto de investimento do produtor rural — e os números das edições recentes confirmam isso.

Na edição anterior, a feira recebeu mais de 65 mil visitantes e superou R$ 1,8 bilhão em negócios fechados entre máquinas, implementos, soluções digitais e insumos, com mais de 350 expositores.
O volume aproxima o evento dos principais encontros comerciais do Centro-Oeste e reforça um fenômeno observado nos últimos anos: a decisão de compra de parte relevante do parque de máquinas agrícolas passou a ocorrer dentro das feiras regionais.

Criada em 2015, a Farm Show nasceu como exposição tradicional, mas mudou de perfil ao longo da década e se consolidou como feira de negócios propriamente dita, acompanhando a expansão econômica do município.

Polo produtivo explica força da feira

A relevância econômica do evento está diretamente ligada ao lugar onde ele ocorre. Primavera do Leste está situada a cerca de 200 quilômetros de Cuiabá, capital do Mato Grosso.

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O município não é apenas uma cidade agrícola típica: ele figura entre os maiores geradores de riqueza do campo no país. Dados do IBGE colocam Primavera do Leste entre os principais municípios brasileiros em valor de produção agrícola, integrando o grupo dos maiores polos de geração de renda rural do país.

A região concentra produção de soja, milho e algodão — base do sistema de segunda safra mato-grossense. O próprio estado deve colher cerca de 50 milhões de toneladas de milho safrinha em ciclos recentes, evidenciando a escala produtiva que sustenta o mercado de máquinas, crédito e tecnologia agrícola.

É esse nível de produção que transforma a feira em ambiente de decisão econômica: o produtor visita, compara e compra. Não por acaso, a comercialização dos estandes costuma ocorrer meses antes do evento e há fila de empresas interessadas em participar.

Mais que exposição: termômetro de investimento

Feiras agrícolas regionais passaram a desempenhar um papel semelhante ao das antigas bolsas de negócios do setor. Em Mato Grosso, onde o custo operacional é elevado e a janela de plantio é curta, a definição de investimento precisa ocorrer rapidamente. A feira concentra revendas, bancos, tradings e fabricantes no mesmo local, reduzindo custo de negociação e acelerando contratos.

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Na prática, a Farm Show funciona como um “início informal” da safra seguinte: produtores avaliam margens, negociam financiamento e travam compras de tecnologia antes do plantio.

Dentro dessa lógica econômica, a organização ampliou áreas de interação com o público urbano — estratégia adotada por várias feiras agrícolas após a intensificação do debate ambiental e climático envolvendo a produção agropecuária.

A proposta não é apenas recreativa. Trata-se de comunicação setorial: apresentar ao consumidor urbano como funciona a produção de alimentos, num estado cuja economia depende diretamente da agropecuária.

O crescimento da Farm Show não é isolado. Ele reflete a mudança estrutural do agro brasileiro: a interiorização do investimento. Municípios produtores passaram a concentrar renda, serviços e indústria, e feiras locais viraram centros de decisão econômica. Um exemplo vem lá do Paraná, onde o Show Rural Coopavel 2026, realizado semana passada, recebeu 430.300 visitantes e realizou R$ 7,5 bilhões em negócios

Para o produtor, isso significa algo objetivo — menos deslocamento, mais acesso a tecnologia e crédito e maior poder de negociação. Para o mercado, indica outra coisa: as decisões que antes passavam pelas capitais agora estão sendo tomadas no interior do país, onde a produção realmente acontece.

Fonte: Pensar Agro

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AGRONEGÓCIO

Metade do prazo já passou e renegociação rural de R$ 100 bilhões ainda não chega ao produtor

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Metade do prazo para a contratação das linhas especiais destinadas à renegociação das dívidas rurais já transcorreu, mas produtores continuam relatando dificuldades para acessar o programa. A Medida Provisória nº 1.376, publicada em 15 de julho, concedeu 120 dias para as operações, período que termina em meados de novembro.

A demora ocorre quando R$ 207,5 bilhões da carteira ativa de crédito rural apresentam algum tipo de problema. O valor corresponde a 23,5% do total e reúne financiamentos inadimplentes, vencidos, renegociados ou prorrogados, segundo dados de julho do Banco Central compilados pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).

O mecanismo foi anunciado com potencial para renegociar mais de R$ 100 bilhões em dívidas de produtores e cooperativas atingidos por eventos climáticos ou pela queda dos preços agrícolas. O Banco do Brasil calcula que até 113 mil clientes da instituição podem ser alcançados pelas novas condições.

Na prática, porém, exigências documentais, custos adicionais, pedidos de novas garantias e cobrança de entrada estão impedindo que parte dos produtores conclua a operação. As dificuldades atingem principalmente agricultores familiares, pequenos produtores e propriedades com o caixa mais comprometido.

Em nota a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) manifestou preocupação com a execução da medida e pediu que o Congresso acompanhe o funcionamento das linhas. A entidade reconhece a importância da renegociação, mas avalia que os recursos ainda não chegam ao campo na velocidade e na escala exigidas pela crise.

Para Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), a existência da linha não basta se as condições impedirem a contratação.

“A renegociação foi apresentada como uma saída para produtores que acumulam perdas há várias safras. Se o agricultor chega ao banco e encontra uma sequência de exigências que não consegue cumprir, a política existe no papel, mas não resolve o problema dentro da propriedade”, afirma Rezende.

Para acessar as condições gerais, o produtor precisa comprovar perdas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda bruta esperada. A comprovação deve ser feita por laudo emitido por profissional legalmente habilitado.

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A exigência busca dar segurança à aplicação dos recursos públicos, mas se transformou em um dos principais obstáculos. Além do custo de contratação do responsável técnico, o produtor pode ter dificuldade para reconstruir dados de lavouras cultivadas vários anos atrás.

A FPA propõe que pequenos produtores possam apresentar laudos coletivos quando as propriedades de uma mesma região tiverem sido atingidas pelo mesmo evento climático. Também defende a dispensa de um novo documento nos casos de operações que já passaram por renegociação e permanecem com saldo comprometido.

“Não se trata de retirar a fiscalização nem de aceitar informações sem comprovação. É possível manter o rigor e, ao mesmo tempo, reconhecer perdas coletivas provocadas por uma seca, enchente ou geada. Exigir dezenas de laudos individuais para propriedades vizinhas atingidas pelo mesmo evento aumenta o custo e atrasa uma solução urgente”, diz Isan Rezende.

A medida provisória permite renegociar financiamentos de custeio, comercialização e industrialização, determinadas parcelas de investimentos e algumas Cédulas de Produto Rural (CPRs) com liquidação financeira. As operações precisam atender às datas e condições estabelecidas no texto.

Os limites chegam a R$ 400 mil para agricultores familiares atendidos pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), R$ 2 milhões para beneficiários do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e R$ 4 milhões para os demais produtores.

As taxas anuais são de 6% para o Pronaf, 9% para o Pronamp e 12% para os demais. O prazo de pagamento pode chegar a oito anos, com a primeira amortização do principal dois anos depois da contratação, embora os juros sejam pagos durante a carência.

Nos casos mais graves, envolvendo perdas de pelo menos 40% da renda em três ou mais safras, os limites e os prazos são ampliados. O financiamento pode chegar a R$ 8 milhões para produtores fora do Pronaf e do Pronamp, com pagamento em até dez anos.

Outro problema é a cobrança de entrada. Produtores que procuram a renegociação geralmente já enfrentam falta de capital de giro. Exigir um pagamento antecipado pode excluir justamente aqueles que apresentam maior necessidade de reorganizar o passivo.

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Há ainda preocupação com a próxima safra. A medida provisória determina que a renegociação não pode impedir a contratação de novos financiamentos nem levar o beneficiário a cadastros restritivos. Ao mesmo tempo, permite que os bancos apliquem suas políticas internas, reavaliem o risco e peçam reforço das garantias.

Essa combinação cria uma diferença entre a proteção escrita na norma e a decisão tomada na agência bancária. Formalmente, a adesão não bloqueia o crédito. Na avaliação individual, entretanto, o comprometimento financeiro pode levar o banco a recusar ou limitar novos recursos.

“A dívida passada precisa ser reorganizada para que o produtor volte a produzir. Renegociar o passivo e fechar a porta do crédito para a nova safra apenas adia o problema. Sem custeio, ele planta menos, reduz tecnologia, perde produtividade e volta a ter dificuldade para pagar”, alerta Rezende.

Os dados nacionais já mostram uma retração do financiamento tradicional. A área produtiva atendida pelas linhas de custeio do Plano Safra caiu de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares em 12 meses, redução próxima de 26%.

No mesmo período, o valor contratado em crédito rural tradicional, sem considerar títulos privados como as CPRs, recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. O número de contratos diminuiu 10,3% e ficou em 777,8 mil.

A FPA também pede que sejam preservadas as características dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste. Essas fontes possuem regras próprias e têm peso maior em regiões nas quais produtores encontram menos alternativas no sistema bancário.

A medida provisória está em vigor, mas precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado para ser transformada definitivamente em lei. A frente parlamentar defende ajustes que reduzam as barreiras operacionais sem eliminar os mecanismos de controle.

O prazo aumenta a urgência. Uma renegociação concluída depois da janela de plantio pode reorganizar o balanço da propriedade, mas já não devolve a oportunidade de produzir naquela safra. Para o campo, o sucesso da medida não será medido pelos R$ 100 bilhões anunciados, mas pelo número de produtores que conseguirem contratar, recuperar o crédito e continuar produzindo.

Fonte: Pensar Agro

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