Tribunal de Justiça de MT
“Autismo não limita”: mãe e filho mostram como inclusão transforma vidas
Publicado em
26 de setembro de 2025por
Da Redação
No Fórum de Cáceres, mãe e filho contaram suas histórias que mostram uma mesma certeza: inclusão não é favor, é caminho para autonomia e cidadania. Autista, Nicolas Brito Sales narrou, com humor e franqueza, a própria trajetória. Em seguida, sua mãe, Anita Brito mostrou como conhecimento e políticas públicas são essenciais para famílias e instituições. Os dois compartilharam suas histórias de vida nesta sexta-feira (26 de setembro), durante a 4ª edição do projeto “TJMT Inclusivo – Capacitação e Conscientização em Autismo”, promovido pela Comissão de Acessibilidade e Inclusão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT).
Nicolas apresentou ao público a palestra “Lugar de autista é onde ele quiser estar”, e contou sobre o diagnóstico oficial, que veio aos 5 anos e meio, quando apresentava regressão de fala, ecolalias (repetição não espontânea de palavras ou frases ouvidas), dificuldade de interação social e outras características que alguns especialistas afirmavam que poderiam ser permanentes. Pouco mais de 20 anos depois, ele conta no palco, rindo de si mesmo, das respostas “fora da caixa” na escola, da rigidez comportamental e da ansiedade social que o fazia evitar aglomerações.
“Valorizem as pessoas pelo todo e deixem os rótulos de lado. Eu gosto de ser autista, de verdade”, contou ele, que hoje circula entre arte e cuidado, atuando como palestrante, fotógrafo, escritor de literatura infantojuvenil e assistente terapêutico. Suas séries de imagens de “redemoinhos” abstratos a paisagens urbanas estampam canecas, lenços, metacrilatos, e já foi premiado internacionalmente como fotógrafo. “A arte organiza o mundo de dentro. Quando crio, eu me sinto livre”, completou.
Já sua mãe Anita começou a carreira como professora de Língua Inglesa e, com o diagnóstico do filho, migrou de área para entender o cérebro. Fez doutorado e pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP), especializou-se em neurociências e hoje dirige tecnicamente um centro de intervenção que adota um modelo brasileiro de inclusão e autonomia, pensado para a realidade do país. Ela apresentou o tema “Inclusão social e neurodiversidade” aos participantes do evento.
“O difícil não é ser autista; difícil é quando a sociedade cria impedimentos. A combinação entre diagnóstico correto, suporte adequado e escola preparada faz a diferença. Foi assim que Nicolas, não oralizado quando entrou na educação regular, saiu orador da turma no ensino médio. Nossa história ilustra um princípio essencial: cada cérebro aprende por caminhos próprios e políticas públicas de inclusão precisam reconhecer e trabalhar por essa diversidade. Não existe ‘cara de autista’. Existem pessoas e cada uma aprende por caminhos próprios”, afirmou.
Nos relatos de mãe e filho, a escola aparece como ponto de virada. Professores que conectaram conteúdos pedagógicos a hiperfocos do Nicolas (como personagens de videogames e desenhos animados) criaram pontes de aprendizagem que o ajudaram a avançar sem adaptações permanentes. Na vida adulta, essa lógica virou autonomia e hoje ele cozinha, organiza a rotina, fotografa, expõe e comercializa obras.
“A soma de diagnóstico correto, suporte adequado contínuo e escola preparada mudam destinos. Não por milagre, mas por método e por responsabilidade compartilhada entre família, profissionais e poder público. Educação inclusiva, junto com as terapias ocupacional, fonoaudiologia e psicologia, devem unir forças. Adaptações curriculares, linguagem acessível, recursos visuais e planejamento individualizado não são ‘favores’, mas condições para que o talento floresça”, afirmou Anita.
A estudante de fonoaudiologia Rosilda Jorrupi, mãe de uma menina autista de seis anos, resumiu o impacto da programação em Cáceres e disse que ver um autista no palco, narrando avanços, limitações e conquistas, educa e inspira. “Tudo contribuiu para o nosso conhecimento. Os palestrantes tinham propriedade e foi um evento muito gratificante para a sociedade cacerense, especialmente para o público atípico” falou.
“Mais que um evento, a edição em Cáceres deu rosto e voz às pautas da neurodiversidade, mostrou que autismo não é sinônimo de incapacidade e que porta aberta, linguagem acessível e empatia constroem cidadania, tanto no Judiciário, na escola, no trabalho e na vida”, destacou a desembargadora Nilza Maria Pôssas de Carvalho, vice-presidente do TJMT e presidente da Comissão de Acessibilidade e Inclusão.
Justiça Inclusiva
Com carga horária de 24 horas e transmissão ao vivo pelo Youtube do TJMT, o projeto “TJMT Inclusivo – Capacitação e Conscientização em Autismo” reforça o compromisso do Poder Judiciário de Mato Grosso em alinhar-se às recomendações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que incentiva os tribunais a promoverem políticas de acessibilidade e inclusão.
A edição em Cáceres soma-se a outras já realizadas em Sinop, Sorriso e Cuiabá, demonstrando o esforço do Tribunal em percorrer todo o estado, levando informação e capacitação. Até o fim do ano, outras comarcas-polo receberão o projeto.
Em sua palestra, Anita Brito abordou ainda aspectos da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), que assegura às pessoas com deficiência — entre elas, as que estão no espectro autista — o direito à educação inclusiva, acessibilidade, atendimento prioritário no sistema de Justiça, acesso ao mercado de trabalho e participação plena na vida social e cultural. A lei reconhece que a deficiência não está na pessoa, mas nas barreiras que a sociedade impõe, e por isso determina que órgãos públicos e privados adotem medidas efetivas para eliminar discriminações e promover autonomia.
De acordo com o CNJ, os tribunais brasileiros devem implementar políticas de acessibilidade e inclusão, de modo a garantir um atendimento mais humano, eficaz e adequado às pessoas com deficiência. Isso inclui a capacitação de magistrados(as) e servidores(as), a adaptação de processos e estruturas físicas e tecnológicas, bem como a promoção de eventos que ampliem a conscientização da sociedade sobre o tema.
Todas as palestras do evento estão disponíveis no YouTube, assista aqui.
Leia também:
TJMT Inclusivo: capacitação em Autismo reúne especialistas e sociedade em Cáceres
Autor: Ana Assumpção
Fotografo: Josi Dias
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
“Façam da vida uma lista de amor e não de terror”, diz juiz após quase 40 anos dedicados à Justiça
Published
2 horas agoon
1 de junho de 2026By
Da Redação
Em uma solenidade marcada pela emoção, gratidão e reconhecimento, o juiz Luiz Antônio Sari despediu-se da magistratura após 39 anos e seis meses de atuação no Poder Judiciário. Realizada no Fórum da Comarca de Rondonópolis, na sexta-feira (29), a cerimônia reuniu magistrados, servidores, representantes do Ministério Público, Defensoria Pública, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), familiares, amigos e convidados para homenagear uma trajetória marcada pela dedicação à Justiça, pelo atendimento humanizado e pela contribuição ao fortalecimento institucional do Judiciário mato-grossense.
Compuseram o dispositivo de honra a juíza diretora do Foro da Comarca de Rondonópolis, Aline Luciane Ribeiro Viana Quinto Bissoni; o promotor de Justiça Reinaldo Antônio Vessani Filho, representando o Ministério Público; o advogado Bruno de Castro Silveira, representante da OAB de Rondonópolis; e os defensores públicos Jacqueline Gevizier Rodrigues Ciscato e Fernando Ciscato Bastos, representantes da Defensoria Pública.
Durante a cerimônia de despedida, Luiz Antônio Sari destacou os valores que nortearam sua caminhada profissional e pessoal. “Entrei no Judiciário em 1986, aos 35 anos. Já era casado com a minha companheira de seis décadas, Sonia Maria, e já tinha meus dois filhos”, relembrou.
Ao fazer um balanço da carreira, o magistrado definiu a magistratura como uma vocação que transcende os limites de uma atividade profissional.
“A magistratura é mais que um sacerdócio. É mais que uma profissão. É algo divino. Não é para qualquer um. É preciso ter amor ao próximo, ser cada vez mais fraterno”, definiu.
A visão humanista que marcou sua atuação também ficou evidente ao recordar os ensinamentos acumulados ao longo de quase quatro décadas julgando conflitos e lidando diariamente com histórias de vida: “Aprendi que o ser humano deve cuidar de si mesmo e buscar harmonia e compreensão ao semelhante.”
Ao olhar para a própria trajetória, Sari afirmou não guardar ressentimentos ou lamentações.
“Eu não tive tristeza, nem dificuldade no caminho. É preciso não ter queixa nenhuma. Só tenho um pouco de decepção porque poderia ter feito mais daquilo que fiz. Nunca parei”, revelou.
A juíza diretora do Foro da Comarca de Rondonópolis, Aline Luciane Ribeiro Viana Quinto Bissoni, destacou a relevância da trajetória de Luiz Antônio Sari para a história do Judiciário local. A juíza pontua que o magistrado construiu uma carreira marcada pela dedicação à comarca e pela decisão de permanecer em Rondonópolis, mesmo diante de oportunidades de ascensão profissional.
“O doutor Luiz Antônio Sari completa 39 anos de magistratura e chega aos 75 anos de idade com uma trajetória admirável. Ele fez a escolha de permanecer em Rondonópolis, mesmo quando a comarca ainda era menor. Sempre teve um vínculo muito forte com a cidade e com a população. Muitos colegas seguiram na carreira para outros cargos e comarcas, mas ele optou por permanecer aqui, onde constituiu sua família e construiu sua história”, afirmou.
A magistrada lembrou ainda que Sari participou ativamente do desenvolvimento da estrutura judiciária local ao longo de mais de três décadas de atuação no município.
“Ele está em Rondonópolis desde 1993 e ajudou a construir a história desta comarca. Foi o primeiro juiz da Execução Penal, atuou nas varas criminais que foram sendo criadas ao longo dos anos e, há bastante tempo, está à frente da 1ª Vara Cível. Sempre foi um magistrado discreto, simples e extremamente humano”, ressaltou.
Ao falar sobre a despedida, Aline destacou o carinho e a admiração que o juiz conquistou entre servidores, magistrados e demais profissionais do sistema de Justiça.
“Todos aqui no fórum têm grande afeição por ele. A homenagem que realizamos foi muito emocionante”.
A dedicação integral ao trabalho é uma característica reconhecida por quem conviveu diariamente com o magistrado. A assessora técnica jurídica Tammy Bellinaso, que trabalhou ao lado dele durante 19 anos na 1ª Vara Cível de Rondonópolis, destacou o compromisso permanente com a magistratura e com os jurisdicionados.
“Dr. Sari deixa um legado de dedicação, respeito e total entrega à magistratura, primando sempre pela entrega humana ao jurisdicionado e pela eficiência dos trabalhos prestados. Ele é exemplo de humanidade, integridade, devoção e amor ao que faz”, disse.
Tammy iniciou sua trajetória profissional no gabinete ainda no segundo ano da faculdade. Começou como auxiliar e, em 2010 assumiu a função de assessora técnica jurídica. Segundo ela, o magistrado viveu a profissão de maneira intensa.
“Durante 39 anos e seis meses de sua vida, o magistrado se entregou ao ofício de corpo e alma. Não houve um dia sequer em que não tenha trabalhado, fossem finais de semana ou feriados. Um verdadeiro amor à magistratura e à Justiça”, contou.
Ela afirma que os ensinamentos recebidos permanecerão como referência para toda a vida. “Ele foi e sempre será meu exemplo de dedicação, resiliência e amor em tudo o que faz. Minha gratidão é imensurável ao profissional e homem exemplar, íntegro e excepcional que ele é”.
Em seu discurso de despedida, Luiz Antônio Sari compartilhou reflexões sobre empatia, solidariedade e convivência humana, valores que considera essenciais para a construção de uma sociedade mais justa.
“Acredito que só exista a religião do amor. Amar o próximo como a si mesmo significa respeitar os sentimentos das pessoas. É um dever que temos a cumprir. Se cada um fizer a sua parte, dois terços dos problemas do mundo estarão resolvidos”, ensinou.
Para o magistrado, a vida em sociedade exige compreensão da interdependência entre as pessoas, pois “somos seres gregários, interligados e interdependentes”.
A mensagem final escolhida para marcar o encerramento de sua carreira resume a filosofia que guiou sua atuação no Judiciário e sua visão de mundo.
“Façam da vida uma lista de amor e não de terror”, ensinou.
Aposentado da magistratura, Luiz Antônio Sari garante que continuará vivendo os mesmos valores que defendeu ao longo da carreira: “Independentemente de estar na ativa, estou aqui. Vejo o sol, danço de manhã porque escolhi ser feliz. O amor é eterno.”
Despedida
A programação da solenidade contou ainda com a exibição de um vídeo institucional produzido pela Coordenadoria de Comunicação do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, além de homenagens e pronunciamentos que relembraram a contribuição do magistrado para a história da comarca e do Poder Judiciário.
Ao longo da carreira, Luiz Antônio Sari participou de importantes marcos da Justiça em Rondonópolis. Entre eles, a mobilização para a elevação da comarca a Entrância Especial, a implantação da Penitenciária Major PM Eldo Sá Corrêa, conhecida como Mata Grande, o fortalecimento do Tribunal do Júri e a construção do atual Fórum Desembargador William Drosghic.
Reconhecido pelo compromisso com a cidade, o magistrado chegou a recusar, em 1994, uma promoção para Cuiabá. A decisão foi motivada pelo entendimento de que sua missão profissional estava ligada ao desenvolvimento da comarca de Rondonópolis e ao atendimento da população local.
A conquista da Entrância Especial, concretizada em 2004 com a inauguração do atual fórum, é considerada um dos momentos históricos de sua trajetória. Outro marco foi a consolidação do Tribunal do Júri da comarca, que passou a contar com espaço próprio em 2007, encerrando décadas de funcionamento em estruturas improvisadas.
Autor: Patrícia Neves
Fotografo:
Departamento: Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
Email: [email protected]
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